quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Conquista da via Gaia Vive - Alto Gaia - São Gonçalo

Por Gabriel de O. Carvalho

Via Gaia Vive - 5° Vsup E2 D2 350m
Conquistadores: Alexandre Langer, Gabriel de O. Carvalho, João Neuhaus, José Gabriel Barcellos e Vinícius Coutinho
Data: 06/2021

Croqui

Início da trilha e local para estacionar o carro: https://www.google.com/maps/@-22.8599998,-42.9011246,128m

(trajeto de carro por Maricá não recomendado devido às péssimas condições da estrada)

Relato da conquista da via Gaia Vive

A primeira conquista na montanha a gente nunca esquece!

Visão do paredão a partir da trilha de acesso à nova via.

Era um sonho antigo meu praticar escalada em São Gonçalo, porém a falta de locais de escalada estabelecidos e o problema da violência urbana, que infelizmente ocorre em grande parte da cidade, sempre me impediram. Contudo, um tempo atrás ouvi falar de um lugar chamado Alto do Gaia, as descrições faladas do local já me chamaram a atenção, ouvi que tinha um paredão lá, que o entorno era rural e que era um local conhecido por praticantes de trekking e motocross, além de ter sido recentemente transformado em Área de Proteção Ambiental (APA).

Esse interesse ficou latente por meses (eu nem nem tinha visto fotos do lugar ainda!), até que resolvi pesquisar sobre o lugar e quando vi as fotos, pirei. Comentei com o Matias (Vinicius Coutinho) e também com o Zé Gabriel, que me alertou já estar de olho nessa montanha há um tempo e que inclusive já existia uma via conquistada lá: Realidade da Laranja (Paredão São Gonçalo) 3º-V. Via esta conquistada por P.C. Caliano, Rodolpho Pajuaba e Juratan Câmara, em 1985. Possivelmente a primeira e, até então, única via de escalada em montanha de São Gonçalo?

No dia 16 de maio de 2021, um domingo, após convencer o Zé Gabriel, partimos para a conquista do Gaia. A aventura já começou no trajeto de carro para chegar lá, dos três caminhos que o Google Maps nos recomendou escolhemos o que julgamos ser o mais seguro: entrando por Maricá. O único problema era a condição da estrada, toda de terra e mais parecia uma trilha de motocross, de fato, na quase 1h de trajeto os únicos doidos de carro por lá éramos nós, acompanhados pelos motoqueiros que desviavam com facilidade dos buracos e piscinas gigantes na estradinha. Após muito sufoco, chegamos em Gaia, mas pelo lado oposto, queríamos acessar a face oeste-sudoeste. Felizmente encontramos um morador que conhecia muito bem o local e nos deu o caminho da pedra, nos poupando muito tempo. 

Quando chegamos lá, mesmo tendo visto as fotos e relatos, nem acreditei que o município nos guardava esta pérola. Um local de características rurais e um visual incrível. A montanha era linda, e ao avistá-la ambos concordamos em ir na direção do vale, face sudoeste, para explorar em busca de uma via um pouco mais vertical. O caminho foi bem fácil, sendo curto e com visão da montanha quase o tempo todo, por isso chegamos na montanha sem muito esforço. Importante frisar que a trilha passa por uma propriedade privada, porém o dono foi bem receptivo, não viu problema com a nossa presença e inclusive nos deu dicas para chegar lá.

Logo no início da trilha, o Zé ficou louco por uma fenda. Confesso que eu não tinha dado muita bola a ela, porque uns 30 m acima dava pra ver que ela entrava numa vegetação arbustiva; fiquei com medo da linha não ter continuidade. Após uma explorada fui convencido a entrarmos nela. Como o Zé estava mais animado concordamos em ele guiar esse primeiro esticão. Zé conseguiu guiar com poucas proteções precárias em móvel e protegendo nos arbustos que ficavam no topo. Com exceção do ataque de formigas e de muitas pedras soltas com risco de me acertarem, ele guiou 50 m da cordada em móvel sem maiores problemas. 

Tivemos uma boa surpresa: o trecho de arbusto se estendia somente por uns 5 metros, logo após havia uma saída para pedra que parecia promissora do lado esquerdo. Foi aí que batemos a parada da via e eu comecei a guiada da segunda cordada. Nesse momento passava das 15h e o sol batia na pedra, porém esta parte de aderência estava bastante babada e suja de líquen. Fiquei bastante drenado com os lances, mas consegui progredir uns 15 m e bater duas chapeletas. Parei na parte que verticaliza, muitas agarras quebrando, o dia já estava terminando e a esta altura achei que só conseguiria passar do lance com cliff, e nem os tinha no dia. Voltamos para casa já no entardecer, mas aquela cordada ficou na minha cabeça a semana inteira. Não conseguia parar de passar como iria vencer aquele lance.

Segunda cordada, os lances seguem na parte exposta de pedra indo pra esquerda e passando no único trecho sem vegetação.

Na semana seguinte voltamos eu e Zé Gabriel novamente, com a companhia de Alexandre Langer, João Neuhaus e Matias. O Zé guiou o lance, dessa vez com as peças móveis do Langer, deixando a enfiada muito bem protegida. Eu subi na sequência e logo já reiniciava a conquista da segunda cordada. Eu estava muito mais focado nessa investida, o lance que achei que faria só com cliff, dei uma escovadinha e passei em livre, protegendo logo em seguida. Segui na conquista muito bem mentalmente, apesar da aderência suja e dos regletes quebrando. Quando a corda já estava acabando achei um platozinho incrível, onde decidi fazer a P2, com 55 m.

João Neuhaus no platô da P2

Agora foi a vez do Langer tocar a sequência da terceira cordada, fortes rajadas de vento aconteciam nessa hora, aumentando a “drena”. A linha sai do platozinho pra esquerda, pegando uma fenda de uns 2 m onde ele protegeu com alguns friends e depois tocou pra cima passando à direita da vegetação. Depois da vegetação, uma surpresa! A nossa via esbarra num veio de cristais incrível que faz um corte em diagonal na montanha para a esquerda. Na hora a gente só escutava o Langer gritando de felicidade falando do que tinha encontrado. Ele tocou uns 45 m e decidiu fazer uma parada num ponto onde o veio começava a ter mais vegetação e ele percebeu que existia uma linha limpa para cima. O visual nessa parte é de tirar o fôlego, tínhamos uma visão ampla da região, inclusive da Baía de Guanabara e das montanhas ao fundo.  

A próxima enfiada o Zé Gabriel tocou, segue uns lances de aderência mais tranquilos em linha reta, passando a esquerda de uma vegetação e chegando numa parada confortável (P4), a cordada ficou com 50 m. Infelizmente o dia já estava acabando e decidimos encerrar a investida. 

Lances em aderência da quarta cordada

Voltamos ao Gaia quando a janela de tempo permitiu. Repetimos todos os lances, e a quinta cordada, que era bem mais tranquila, foi conquistada pelo Matias que estava aprendendo, e pelo João. A maior parte dessa cordada é uma escalaminhada bem fácil, com um lancezinho de escalada no final para chegar na P5.

A sexta cordada quem tocou foi o Zé, ela começa numa aderência salgada, talvez um V, por uns 10 metros, depois fica mais tranquila e vai até chegar numa parede vertical, onde ele contornou pra esquerda até chegar num lance de fenda bem maneiro. O doido tocou direto e o lance ficou bem exposto, depois eu e o Matias voltamos e intermediamos uma parte do crux.

De presente de aniversário (eu faria 31 anos em poucos dias) deixaram a conquista da sétima cordada para mim. Apesar de já estar exausto do dia, essa parte da conquista foi irada. Começa protegendo em móveis em algumas fendas, e depois faz alguns crux em IVsup e V protegidos em chapeleta. Depois da parte mais difícil, aproximadamente 20 m, a via encontra uns lances com agarras e regletes bem maneiros até o final. Cheguei onde julguei ser um bom local para a parada já no fim do dia. A galera veio rápido subindo pela corda fixa. 

Com o horário avançado, o João foi na frente pra tentar achar alguma trilha para o cume, após uns 20 min ainda não sabíamos exatamente onde estávamos, decidimos a contra-gosto retornar via rapel. Nesse dia terminamos a via, mas sem saber, porque não achamos o cume e nem sabíamos se teria mais escalada.

O cume só veio em outra investida, no dia 26 de junho de 2021, eu, Zé e Matias fomos com a missão de escalar a via inteira e de anotar as informações para fazer o croqui. Enfim, às 16h finalmente pudemos gritar “cumee”. Quis o destino também que a minha primeira escalada em São Gonçalo fosse também a minha primeira conquista em montanha, que privilégio. A via deve dar um quinto no geral, com cordada em fenda, aderência, regletes no vertical, veio de cristais em diagonal, e uns trepa matos também. 350 metros de muita aventura. Chamamos a via de "Gaia Vive". Uma lembrança aos fragmentos de mata atlântica que ainda resistem, principalmente graças às nossas montanhas e áreas de conservação.

O dia em que finalmente gritamos “cumeeee”

Que venham as próximas! 




Conquista da primeira cordada

Conquista da primeira cordada

Cristais, um dos lances mais bonitos da via

João passando uns betas de conquista para o Matias na quinta cordada

Zé conquistando a sexta enfiada

Minutos após bater a P7

Alexandre Langer na terceira cordada

Lances iniciais da sétima enfiada


sábado, 3 de julho de 2021

Serra da Canastra

Serra da Canastra, MG.

Por Leonardo Carmo

23 a 30/05/2021

Leonardo Carmo e Carina Melazzi


Cortar a Serra da Canastra sempre foi um desejo nosso. Em 2018 a gente foi pra lá no carnaval, porém na época a gente tinha um Pálio Weekend Adventure. Era uma carro valente, mas não conseguiu transpor o lamaçal na subida pro parque entrando por São Roque. Conseguimos fazer algumas coisas, mas o fato da gente não ter conseguido subir ficou entalado e aí veio a promessa de que quando a gente tivesse um 4x4 iria voltar.

Bom, compramos um 4x4 e a primeira viagem seria justamente pra lá e numa data legal: meu aniversário. Eu queria me dar esse presente e consegui.

Ficamos planejando a viagem durante um mês. Dias antes de zarpar entrei em contato com o parque para saber se não fecharia de novo por conta da pandemia e tive uma surpresa: o parque estaria fechado na segunda e terça e só abriria a partir de quarta. Tivemos que mudar rapidamente o nosso roteiro e decidimos então "turistar" em Tiradentes antes de partir para a Canastra.

Fizemos o seguinte:

Saímos de Niterói no dia 23/05. Passamos em Juíz de Fora, pois estava em busca de uma capota de fibra e vi um anúncio de lá.  Depois continuamos e chegamos em Tiradentes na parte da tarde. 
Lá fizemos o primeiro pernoite na Pousada João Mineiro @pousadajoaomineiro

No dia 24/05, curtimos a cidade e fizemos outro pernoite.


No dia 25/05, partimos pra São Roque de Minas, onde pernoitamos na Pousada Casca D'Anta. Nesse dia tivemos um problema com o carro. Arrebentou a correia do alternador que pega na polia da direção. A direção ficou dura e a bateria não carregava. Conseguimos andar até um posto e lá nos indicaram uma oficina numa cidade chamada Carmo da Mata. As coincidências da vida são interessantes. 

Paramos na "Oficina do Rafa", onde o dono era de Niterói e estava morando lá há 18 anos. Depois de uma boa conversa e correia trocada, continuamos a viagem. 


No dia 26/05, meu aniversário, acordamos cedo e passamos no mercado pra comprar gelo. Por volta das 7h20, chegamos na portaria do parque. O parque só abre às 8h, mas a ideia era mesmo chegar antes pra poder tomar um café da manhã bem na portaria e curtir o visual.


Entramos no parque e fizemos a nossa primeira parada na nascente do Rio São Francisco. Esse era um ponto que eu queria muito conhecer. Depois seguimos para o Curral de Pedras. Fomos no Alto Rolinho e também na cachoeira Rasga Canga. Depois fomos até a parte Alta da cachoeira Casca D'Anta até que paramos para lanchar na Garagem de Pedra.

A parte baixa da Casca D'Anta a gente já tinha ido na nossa primeira expedição pra Serra da Canastra.

Depois de curtir um lanche e o visual da Garagem de Pedra, continuamos a nossa travessia para a portaria de Sacramento. Depois de uns bons km, chegamos na portaria. De lá, ainda tínhamos mais 34 km até o Rancho do Ivair, onde alugamos para fazer dois pernoites.

Esse rancho @ranchorecantodaserra_ fica na parte rural de Tapira, a 15 km da cidade. Eu encontrei esse rancho depois de muita busca e ligações aleatórias. Valeu a insistência, pois o lugar era tudo que a gente buscava. Uma casa simples, bem localizada e tranquila. Estávamos literalmente isolados. Mal dava pra ver as luzes da casa do vizinho. Lá passamos a noite do meu aniversário e pra completar, pegamos uma linda noite de lua cheia. Enquanto a gente bebia uma cerveja e fazia a janta, a lua cheia surgia e da cozinha vimos a lua nascer. Inesquecível.

No dia 27/05, nossa missão era conhecer a cachoeira Parida, que fica dentro do Parque, mas o acesso se dá por uma propriedade particular. Tivemos que pagar 25 pilas por pessoa.

De volta ao rancho, foi só dar uma geral no carro, beber uma gelada, fazer o jantar e ver o jogo do Mengão. Não tínhamos TV, mas no rancho tem internet (Wi-Fi) e aí puder ver o jogo on-line. Em alguns pontos do rancho têm sinal da Vivo.

No dia 28/05, partimos para o Recanto da Paz, em Delfinópolis. A poeira comia solta. Foram mais de
100 km nas estradas de terra levantando poeira. A ideia nesse dia era passar na cachoeira do Zé Carlinhos, mas por conta da pandemia, ele disse que não receberia ninguém. Então fomos direto para o Recanto da Paz, só que antes, no caminho, passamos no alambique Funil. Depois de beber várias doses gratuitas rsrsrs, continuamos levantando poeira.

Chegando no Recanto da Paz, fomos recebidos pelo Chicão, responsável pelo lugar. O cara é gente boa demais. Montamos nosso acampamento, e fui mais uma vez limpar a caçamba do carro. Mesmo com a capota marítima a poeirada entrou. A sorte foi que a gente levou as coisas em caixas de plástico com tampa. Aí a limpeza ficou menos dolorosa. 

Fizemos o nosso jantar curtindo uma cachacinha pegando um lindo pôr do sol. Outro momento único.

Essa noite foi a mais difícil porque dias antes eu havia sofrido um ataque de pulgas. A gente suspeita que tenha sido lá em Tiradentes. Meus pés estavam cheios de picadas e coçava feito louco. 
A única forma de dar uma aliviada era deixar a água gelada caindo em cima para dar aquela anestesiada.

Nessa noite pegamos uma tempestade de areia. O terreno lá é meio arenoso e ventou muito de noite. Dava pra sentir a areia batendo na barraca. Pernoitamos lá sozinhos. Tínhamos toda aquele paraíso só pra gente, quer dizer, pra gente e pro lobo que costuma andar por lá.

Aproveitando para agradecer ao Ritielle. Ele cuida do Instagram do Recanto @recantodapaz. Trocamos altas ideias na programação dos pernoites em Delfinópolis.


No dia 29/05 as picadas das pulgas já estavam me consumindo, mas a gente 
tinha todo aquele paraíso chamado Recanto da Paz (Complexo de cachoeiras Santa Maria) pra conhecer. Decidimos então ir nas cachoeiras e poços e na parte da tarde descer pra cidade pra procurar uma farmácia.

Enquanto eu estava dentro da água, a coceira dava uma aliviada. Fiquei na cachoeira do Poço Encantado por um bom tempo aproveitando o lugar e a água gelada. Esse poço foi o meu preferido.

Depois de conhecer os 7 atrativos (cachoeiras e poços), levantamos acampamento e partimos para São João Batista do Glória em busca de uma farmácia. Só que no meio daquela BR ainda de terra, tinha um Fusca, mas não era qualquer Fusca. Era um Fusca que saía cerveja. Isso mesmo, um Fusca chamado Well's Beer Canastreiro @wells_beer_canastreiro. Quando eu vi isso, nem me lembrei da coceira. Só queria beber aquela cerveja extraída do Fusca.

Depois de aproveitar esse outro momento inesquecível, continuamos para São João. Chegando lá, fomos para Hospedaria Casa dos Arcos @hospedariacasadosarcos, onde pernoitamos. A partir daí, encontramos uma farmácia e comprei um sabonete para coceira, que não adiantou muito.

No final do dia, andamos pela simpática e aconchegante cidade. Passamos na loja Venda da Canastra @vendacanastra, onde compramos queijos e o tão procurado adesivo da Serra da Canastra. Valeu pela atenção, João.

No dia 30/05 pegamos estrada de volta pra casa.

Links úteis:

Wikiloc leo.carmo1

Pousada João Mineiro @pousadajoaomineiro

Rancho do Ivair @ranchorecantodaserra_

Recanto da Paz @recantodapaz

Fusca cervejeiro @wells_beer_canastreiro

Hospedaria Casa dos Arcos @hospedariacasadosarcos

Venda da Canastra @vendacanastra

Parque Nacional Serra da Canastra 

Tiradentes












Oficina em Carmo da Mata, MG

Serra da Canastra



















Rancho Recanto da Serra





Serra da Canastra - Cânion Cachoeira Parida




Recanto da Paz - Complexo de Cachoeiras Santa Maria





































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