Participantes: Leandro do Carmo, Leonardo Carmo, Leandro Conrado e Ricardo Bemvindo
Histórico e Curiosidades
O sistema lagunar de Maricá é composto por um complexo de quatro lagoas principais interligadas, que se estendem paralelamente ao litoral.
Principais Lagoas e Localizações
Lagoa de Guarapina: Fica na extremidade leste do complexo, banhando os bairros de Ponta Negra, Bambuí e Cordeirinho. É conectada ao mar pelo Canal de Ponta Negra.
Lagoa do Padre: Uma lagoa menor situada entre a Lagoa da Barra e a de Guarapina, próxima ao bairro de Cordeirinho.
Lagoa de Jacaroá: Embora tecnicamente um braço ou enseada da Lagoa de Maricá, é frequentemente tratada de forma individual devido à sua fama pelo fenômeno da bioluminescência (águas que brilham no escuro), observado recentemente em 2025 e 2026.
Lagoa de Maricá: É a maior do sistema, banhando o distrito-sede e bairros como Araçatiba (onde fica a famosa orla de lazer), Itapeba, São José do Imbassaí e Marine.
O Complexo Lagunar de Maricá é um dos mais importantes sistemas lagunares costeiros do estado do Rio de Janeiro. Localizado no município de Maricá, na Região Metropolitana Leste Fluminense, o conjunto de lagoas se estende paralelamente ao litoral, entre o Oceano Atlântico e a Serra da Tiririca, formando uma paisagem singular que combina água doce, água salobra, restingas, manguezais e áreas de Mata Atlântica.
Vídeo da Travessia das Lagoas de Maricá de caiaque
Relato da Travessia das Lagoas de Maricá de caiaque
Já havia tentado marcar essa remada, atravessando as Lagoas de Maricá, há um bom tempo. Mas a logística sempre foi um fator complicado. Fazer isso sozinho, era quase impossível. O tempo foi passando e nos últimos anos, com o grande processo de urbanização promovido pela prefeitura de Maricá e financiado pelos royalties do petróleo, foi ficando mais fácil conseguir montar o roteiro. Analisei as imagens de satélite e foi possível dividir o percurso em quatro partes: Ponta Negra x Bambuí, Bambuí x Guaratiba, Guaratiba x Boqueirão e Boqueirão x Amendoeiras. Todos os trechos com, aproximadamente, a mesma distância. O roteiro estava pronto, mas ainda existia a dúvida se seria possível cruzar os canais. A dúvida é se eles estariam assoreados.
Durante a Travessia da Juatinga, eu, meu irmão, Leandro Conrado e o Ricardo, combinamos de fazer essa remada. Definimos a data e acertamos toda a logística. Fez bastante calor durante a semana e optamos por chegar bem cedo e começar a remar logo, pois por volta das 9h o calor já estava insuportável. Nos encontramos no caminho e deixamos um carro no ponto onde terminaríamos a remada, assim poderíamos voltar e pegar os carros que deixaríamos no início da remada.
Atrasamos um pouco e começamos a remar às 6h 40 min. Um pouco depois do que havíamos programado. O tempo estava levemente nublado. Não ventava. Olhava e via a lagoa bem lisa, sinal de remada tranquila. Com tudo pronto, fomos para a água. Saímos bem ao lado da boca do canal. Esse primeiro trecho remaríamos pela lagoa de Guarapina, até a orla de Bambuí. Esse trecho foi tranquilo, foi remada para aquecer. Eu e meu irmão desenvolvemos bem, mas o Ricardo e o Leandro ficaram um pouco para trás, pois estavam num caiaque duplo aberto e ele não tem um desempenho tão bom.
De longo não era possível ver a entrada do canal de Bambuí, mas à medida que fomos nos aproximando, foi possível vê-lo. Logo na entrada, passamos pelo deck de Cordeirinho e seguimos pelo canal. Avançamos e entramos num trecho onde estávamos ao lado eu uma rua, já em área urbana. Cruzamos uma ponte e chegamos ao ponto onde havia marcado para fazer a primeira parada. Nem chegamos a desembarcar, pois não havia um bom local. Bebemos uma água e descansamos um pouco.
De volta a remada, entraríamos no ponto de maior dúvida da travessia: a ligação entre o canal e a Lagoa do Padre. Seguimos remando e cruzamos com alguns grupos de Flamingos, num espetáculo a parte. Nesse trecho, já chegando à Lagoa do Padre, a profundidade despenca para alguns centímetros e em alguns pontos o fundo do caiaque arrastava. Era preciso tomar cuidado e escolher o melhor caminho para não ficar preso. O fundo era de lama e quando arrastava o remo, via aquele lodo subir. Nesse trecho também percebi que havia tido alguma obra de desassoreamento, pois nas bordas, havia vários depósitos de areia. Ainda bem que tinham trabalhado no local, acho que seria bem difícil ter passado ali há um tempo. Do outro lado, mais um grupo grande de Flamingos e próximo a gente, um grande grupo de aves. Tentei me aproximar um pouco, mas o caiaque encalhou. Voltei e continuei a remada.
Depois desse trecho, entramos na lagoa do Padre e as condições não melhoraram. Continuava um trecho raso e tínhamos dificuldade em remar. Ainda bem que foi o trecho razoavelmente mais curso, se comparado aos outros. De longe conseguíamos ver uma ponte e seguimos em direção a ela. Após passar a ponte, entramos no canal de que liga essa lagoa a de Jacaroá. Mais a frente consegui avistar vários barcos, estávamos chegando à Orla de Guaratiba, nosso segundo ponto de parada. Segui até ele e desembarquei. Esperamos o Leandro e o Ricardo chegarem. Aproveitamos para fazer um lanche e descansar. Ficamos ali durante um tempo até que voltamos para a remada, ainda falta um bom trecho.
De volta a água, continuamos no canal e entramos na lagoa de Jacaroá. Atravessamos um longo trecho. Cruzamos a Ponta da Divinéia. Estávamos no trecho mais bonito e preservado de toda a travessia. Depois de ter atravessado o pior, compensou passar aqui. À esquerda, uma bela enseada que merecia uma visita, mas ficará para uma próxima. Cruzamos com alguns pescadores e de lá, seguimos para a enseada da Lagoa do Boqueirão. Ali tem uma excelente estrutura, a melhor de toda a travessia. O Ricardo e o Leandro demoraram um pouco para chegar. Lanchamos e descansamos bem para o último e mais longo trecho da remada. Nesse, não teríamos ponto de apoio. Até agora, seria fácil parar e descansar em algum lugar, caso precisássemos. A travessia agora era direta e pelo meio da maior lagoa do complexo lagunar de Maricá.
Voltamos para a remada. Pela previsão, entraria um vento leste que estaria totalmente a favor da remada. Cruzamos a ponte do Boqueirão e entramos na Lagoa de Maricá. Começamos juntos, mas logo nos distanciamos. E a previsão acertou, o vento começou a apertar e começou as marolas. Como estava a favor, tudo tranquilo. De longe consegui avistar uma ilhota. Era uma que já queria passar por ela, desde quando havia planejado a remada. Segui até ela, mas não desembarquei. Segui remando e fui me aproximando de uma enseada, mas estava percebendo alguma coisa diferente. Quando cheguei mais perto, vi que não era a de Amendoeiras, tivemos que ajustar a rota e seguir remando.
Cruzamos um morro e logo entramos num trecho mais abrigado. O vento mais fraco no local deu um refresco. Seguimos remando até um pequeno píer. Eu e meu irmão esperamos o Leandro e Ricardo chegarem. Colocamos os caiaques na calçada, procuramos uma sombra. Aí foi esperar a logística dos carros.
Enfim havia saído a tão esperada Travessia das Lagoas de Maricá. Agora sei que é possível atravessar remando. Qual será próxima remada?
Data: 18/12/2025 Local: Paraty - RJ Participantes: Leandro do Carmo, Leandro Conrado, Marina Fernandes e Ricardo Bemvindo
Travessia da Juatinga
Resumo da Logística da Travessia da Juatinga:
Dia 17/12/2025 – Viagem para Paraty e pernoite na cidade Dia 18/12/2025– Ônibus para Vila Oratório (05h:45min) – Rodoviária de Paraty, Vila Oratório x Ponta Negra x Cachoeira do Saco Bravo x Ponta Negra Dia 19/12/2025 – Ponta Negra x Martim de Sá – Pernoite no Camping do Seu Maneco Dia 20/12/2025 – Martim de Sá x Cruzeiro – Pernoite do Camping do Oliveira Dia 21/12/2025 – Pão-de-Açúcar do Saco do Mamanguá x Volta para casa
A Península da Juatinga, no litoral sul fluminense, sempre teve grande importância histórica e geográfica. Suas montanhas altas, o litoral recortado e o difícil acesso fizeram da região uma fronteira natural desde o período colonial. Inicialmente, ela dividia territórios entre povos indígenas como Tupinambás e Tupiniquins; depois, entre portugueses e franceses, o que rendeu à área a fama de refúgio de piratas. A região também serviu como porto clandestino para o desembarque de africanos escravizados, inclusive após a proibição oficial do tráfico em 1850.
Com a abertura da Rodovia Rio–Santos, na década de 1970, iniciou-se um novo ciclo de pressão sobre as comunidades caiçaras, descendentes de indígenas, africanos e europeus, que sempre viveram da pesca e de práticas de subsistência. O isolamento diminuiu e os conflitos por grilagem e disputa fundiária aumentaram.
Para proteger tanto o meio ambiente quanto a cultura caiçara, foram criadas a APA Cairuçu (1983) e a Reserva Ecológica da Juatinga (1992). Essas áreas de conservação ajudaram a preservar o território e a fortalecer a luta dos moradores pelo direito às próprias terras e ao seu modo de vida.
Hoje, a Juatinga é considerada uma joia do litoral brasileiro, valorizada pela natureza exuberante e pela resistência cultural das comunidades caiçaras. Em 2019, a região — junto com a cidade de Paraty — foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade.
Relato da Travessia da Juatinga
A Travessia da Juatinga é uma das mais belas trilhas do litoral sul do Rio de Janeiro, localizada na Reserva Ecológica da Juatinga, em Paraty. Com praias paradisíacas, Mata Atlântica preservada e vilas caiçaras, essa experiência reúne esforço físico, contato com a natureza e imersão na cultura local. Eu já havia marcado de fazer essa travessia em 2021, mas, por conta da COVID-19, precisei adiar. Agora, havia chegado a hora.
Combinamos a data alguns meses antes, mas, na semana anterior à travessia, as condições climáticas não eram nada favoráveis. Ainda assim, mantivemos a programação — e acertamos, pois o tempo foi melhorando à medida que a data de partida se aproximava. Havia apenas um problema: o dia que marcamos para viajar era o da final do Mundial de Clubes, em 17/12, quando o Flamengo disputaria o título contra o Paris Saint-Germain. Decidimos sair na hora do almoço e assistir ao jogo na estrada.
A viagem foi tranquila, e chegamos a Paraty no final da tarde. Lanchamos e fomos procurar um local para dormir e outro para deixar o carro estacionado durante os dias em que estaríamos na travessia. Alugamos uma boa casa e fechamos um estacionamento bem ao lado da rodoviária. Restava, então, organizar tudo e descansar para o dia seguinte.
Dia 1 – Vila Oratório → Ponta Negra → Cachoeira do Saco Bravo → Ponta Negra
Distância percorrida: 18 km
Acordamos cedo e seguimos para o estacionamento que fica ao lado da rodoviária. Deixamos o carro lá e fomos para o local de embarque. O ônibus em direção à Vila Oratório sairia às 5h45. O veículo era bem velho, mas seguiu sem problemas pela estrada estreita até Laranjeiras. Levamos cerca de 35 minutos até o início da trilha e iniciamos a caminhada às 6h30, conforme programado.
A placa na entrada indicava os destinos: Praia do Sono, Antigos, Antiguinhos e Ponta Negra. Nosso objetivo era Ponta Negra, distante 7,8 km. Ainda faríamos um bate-volta até a Cachoeira do Saco Bravo. O único que conhecia o caminho era meu irmão Leonardo, que já havia feito parte da travessia. Levando em conta os últimos dias de forte calor no Rio, o dia estava razoavelmente agradável, com bastante nebulosidade.
A trilha começou por uma estradinha pavimentada, que logo deu lugar a um caminho de terra, ainda assim bem conservado. Logo veio a primeira subida, suficiente para aquecer o corpo e preparar para o sobe e desce que desenharia o longo percurso dos próximos quatro dias. Cruzamos com algumas pessoas, que só depois fui entender que retornavam da Praia do Sono.
Em pouco tempo de caminhada, surgiu a primeira vista fantástica: a Praia do Sono. Era algo de tirar o fôlego. De um lado, o verde da Mata Atlântica bem preservada; do outro, o mar esverdeado, separados por uma faixa branca de areia. Descemos e logo estávamos com os pés na areia. Paramos em alguns bancos e aproveitamos para tomar café da manhã.
Dali, seguimos caminhando pela areia, e a passagem pela Praia do Sono foi surreal. Não havia ninguém naquele início — talvez pelo horário — embora existissem várias casas, algumas bem bonitas e novas. Caminhamos por toda a extensão da praia sem cruzar com ninguém. Já no final, onde deságua um rio, paramos para tirar as botas, e aproveitei para fazer algumas fotos. Atravessamos o córrego e pegamos a subida em direção ao mirante. Era uma subida forte. Nesse ponto, um cachorro começou a nos seguir. Ainda tentamos fazê-lo voltar, mas foi em vão. Então, seguimos adiante. Lá de cima, todo o esforço valeu a pena. Fizemos mais uma parada rápida antes de continuar.
Seguimos pela trilha bem demarcada até a Praia dos Antigos. Cruzamos um pequeno curso d’água e continuamos pela areia fofa. Uma praia completamente deserta. Só se ouvia o som das ondas — nada mais. Uma praia linda. Entramos novamente na trilha e passamos pela entrada da Praia dos Antiguinhos, onde optamos por seguir caminhando. Depois de mais algumas sequências de subidas e descidas, chegamos à Praia das Galhetas.
A ponte suspensa estava quebrada, restando apenas pedaços pendurados. Tivemos que atravessar o rio pulando de pedra em pedra. Essa é uma praia sem faixa de areia, composta apenas por pedras. Não paramos e seguimos rumo ao destino final.
Após mais algumas subidas, começamos a avistar construções. Com certeza, estávamos chegando a Ponta Negra. Caminhamos pelo labirinto de trilhas e pedimos informação a uma moça sobre a localização do Camping do Ismael. Ela nos orientou, e seguimos até lá. Foi fácil de encontrar: ficava em frente a uma escola. Não havia ninguém no camping — assim como em toda a trilha, durante o dia, não encontramos nenhuma outra pessoa. Acertamos o pernoite, organizamos o acampamento e fomos dar uma volta pela vila, em busca de um local para comer depois da visita à Cachoeira do Saco Bravo.
Ponta Negra é uma vila caiçara isolada entre o mar e a mata. Ali vivem pescadores, famílias tradicionais e alguns poucos excêntricos endinheirados, donos de casas improváveis. Em frente à praia, deixamos nossa refeição encomendada para as 16h e seguimos para a Cachoeira. Passamos por diversas casas e começamos a subir. Sem as mochilas cargueiras, o caminho parecia mais fácil, mas, após alguns minutos, a dificuldade voltou a se impor.
A trilha foi pesada, com trepa-pedras, subidas longas, trechos escorregadios com corda fixa e algumas bifurcações sem sinalização. Em determinado ponto, começamos a descer, o que me fez pensar que já estaríamos chegando, mas logo encaramos mais uma subida.
O barulho do mar foi aumentando, sinal de que estávamos próximos. A claridade se abriu, e logo estávamos diante da Cachoeira do Saco Bravo. O mar estava um pouco agitado, e o som das ondas, às vezes, assustava. A água do oceano, em certos momentos, quase alcança a piscina natural encravada na rocha. Fiquei ali algum tempo avaliando se era seguro entrar. Por fim, descemos e mergulhamos naquela água que recarregou o corpo por completo. A temperatura estava extremamente agradável.
Permanecemos ali por um bom tempo, até decidirmos retornar. E a volta também foi dura — agora sentindo o peso de todo o dia.
De volta ao camping, deixamos o equipamento e seguimos para o restaurante, onde comemos um peixe frito com arroz e feijão. Uma refeição fantástica depois de um dia intenso de caminhada. De volta ao Camping do Ismael, organizamos tudo, já que sairíamos bem cedo no dia seguinte. Conversamos um pouco, até que resolvi me deitar e descansar. E o “Bolota” dormiu ao nosso lado, entre as barracas.
Fotos do dia 1 da Travessia da Juatinga
Dia 2 – Ponta Negra → Martim de Sá
Distância percorrida aproximada: 12 km
Acordei cedo e senti algo encostado na lateral da barraca e quando saí, vi que era a “Bolota” dormindo. Ela ficou literalmente no nosso lado. Levantei, preparei um café e organizei tudo para a iniciar a caminhada. Saímos no horário combinado, Era 6h da manhã. Estava nublado e pelas condições poderia chover a qualquer momento. Entramos no labirinto de caminhos até que encontramos um morador local na qual havíamos conversado no dia anterior e ele foi andando com a gente até o início da trilha. Conversamos bastante e ele nos mostrou e contou alguns detalhes sobre um grande desmoronamento que havia acontecido anos antes. O estrago foi grande e ainda havia sinais no local. Dali, pegamos uma reta e iniciamos a subida, lenta, mas constante nesse início.
Achei que o “Bolota” fosse voltar para a Praia do Sono, mas ele continuou conosco, fazendo, literalmente, parte do nosso grupo. Era um silêncio total, só cortado pelos pássaros cantando e o barulho de água corrente que foi ficando mais distante, conforme fomos subindo. Fomos ganhando altura lentamente até que comecei a sentir alguns pingos mais fortes. Estava chovendo. Aumentou a intensidade, mas nada que atrapalhasse. Em determinado ponto, a trilha foi ficando mais difícil, com raízes grossas, trechos escorregadios e pedras irregulares. Fizemos uma rápida parada para comer algo e descansar um pouco.
O tempo continuava fechado e chuvinha fraca permanecia. Em certo momento, a subida perdeu inclinação e cruzamos uma área mais aberta onde existia uma placa informativa. Havíamos concluído a subida mais forte do dia. Ali, fizemos mais uma parada, sabendo que dali em diante, seria descida. Mas quem disse que seria fácil? O caminho continuou irregular. Depois de um tempo descendo, percebi que chuva havia parado, acho que ela estava concentrada na parte mais alta da montanha.
Continuamos caminhando e avistamos uma casa. Havia um bom local para parar e ali resolvemos fazer nosso “almoço”. Comemos e descansamos. De volta a caminhada, passamos pela entrada para Cairuçú da Pedras e continuamos a caminhada. Entramos num trecho aberto, onde era possível ver o mar, momentos raros até aqui. Num sobe e desce, agora passamos por trechos mais abertos, foi possível acompanhar o mar bem de longe. Entramos novamente na mata fechada e cruzamos rios por algumas vezes antes de chegar ao camping do Seu Maneco, na isolada Praia de Martim de Sá. Enquanto isso, a “Bolota” nos seguia. Passou um grupo e ela meio que fez uma festa, se afastando um pouco da gente. Pensei: “Agora ela vai embora”. Não demorou 10 segundos e já estava ela do nosso lado novamente.
No camping do Seu Maneco, conversamos sobre parar ali ou seguir até Pouso da Cajaíba, mas resolvemos parar e aproveitar a praia. Já havíamos andado o suficiente, apesar de estar cedo. Combinamos o almoço e aproveitamos para dar um mergulho. Seguimos até a praia e fui até seu canto esquerdo, onde desaguava um rio. O dia estava nublado, mas a temperatura da água estava agradável. O espaço do camping do Seu Maneco é fantástico. Existem dois restaurantes, todos da mesma família. Apesar do excelente espaço, a estrutura não é das melhores. Mas estava ótimo. Aproveitamos para pegar uma praia antes do almoço e depois descansamos, recarregando as baterias para dia seguinte, o mais exigente da travessia, que só saberíamos depois...
Fotos do dia 2 da Travessia da Juatinga
Dia 3 – Martim de Sá → Cruzeiro
Distância percorrida aproximada: 14 km
Acordamos cedo, conforme combinado. Nossa estratégia era começar a caminhar o mais cedo possível; assim, chegaríamos ao destino do dia perto do horário do almoço e poderíamos aproveitar melhor. E, até aquele momento, a estratégia vinha funcionando! Assim como em Ponta Negra, deixamos tudo acertado com o camping na noite anterior e iniciamos a caminhada por volta das 6h.
O dia amanheceu aberto, bem diferente dos anteriores. No entanto, isso também era sinal de que enfrentaríamos um calor intenso. A caminhada já começou com uma subida forte. Era um trecho relativamente fácil e, pela largura e pelas estruturas de contenção em alguns pontos, o caminho lembrava uma antiga estradinha. Mas isso não durou muito. Após cerca de 2 km de subida, chegamos a um largo onde uma placa indicava “Praia da Sumaca”. Essa, porém, ficaria para uma próxima oportunidade…
Fizemos uma pausa rápida e iniciamos a descida em direção à Praia do Pouso da Cajaíba. Eu não havia pesquisado nada sobre o local e, ao chegar, me surpreendi com a quantidade de casas e a estrutura existente. Havia residências bem bonitas e vielas calçadas. Era movimento demais para o meu gosto; eu preferia a paz e o silêncio das praias por onde já havíamos passado.
Logo no início da praia, uma criança reconheceu a “Bolota”, dizendo que ela era da Praia do Sono. Tentamos fazer com que ela ficasse ali, mas quem disse que adiantou? Acho que ela também queria chegar até o Cruzeiro!
A partir dali, pegamos uma sequência de praias belíssimas, com pequenas e aconchegantes casas, onde o tempo parecia correr mais lentamente. O único som que se ouvia era o das pequenas ondas quebrando na areia. O dia aberto realçava a cor da água, tão verde e transparente que convidava a um mergulho tentador. Mesmo assim, seguimos caminhando, deixando a parada mais para frente.
Cruzamos as praias de Itanema, Calhaus e Itaoca, todas envoltas em encanto e beleza pura. A essa altura, o calor já estava intenso e, após um trecho mais longo, chegamos a um verdadeiro paraíso: a Praia Grande da Cajaíba. Ali não teve discussão — a parada foi unânime. No canto da praia, havia um quiosque com sombra e um cano de água doce. Larguei a mochila e fui direto me refrescar. Ficamos ali por um bom tempo.
Conversamos com um caiçara, filho de um antigo morador, e perguntei por que não havia casas naquela praia, diferentemente das outras por onde havíamos passado. Ele contou que uma pessoa de São Paulo havia comprado as terras de cerca de 40 famílias que viviam ali, e que seu pai foi um dos poucos que resistiram. A maioria acabou indo viver de forma precária em Paraty. Uma realidade triste.
Era hora de retomar a caminhada. Ainda enfrentaríamos uma subida forte para alcançar a vertente do Saco do Mamanguá e seguir até o nosso destino. Na minha cabeça, seria fácil — mas estava enganado. Tomei uma água de coco gelada e seguimos sob o sol forte. Cruzamos a Praia Grande da Cajaíba, que não recebeu esse nome por acaso. Curiosidade: “Cajaíba” é o nome de uma fruta que, segundo o caiçara com quem conversamos, já está extinta na região.
No final da praia, iniciamos a subida. Foram aproximadamente 2 km sob calor intenso, até cruzarmos a linha de cumeada e entrarmos no Saco do Mamanguá. O Saco do Mamanguá é considerado o único fiorde brasileiro. Fiorde é um tipo de enseada estreita e profunda, cercada por montanhas, comum em países como Noruega e Nova Zelândia. Ali, o mar avança por cerca de 8 km entre paredões de Mata Atlântica preservada, formando um cenário impressionante.
A partir desse ponto, iniciamos uma descida que parecia interminável. Nosso ritmo já não era dos melhores e começamos a nos distanciar uns dos outros. Próximo à Praia do Engenho, acabamos nos separando de vez. Ainda faltavam 5 km, que pareceram infinitos. Caminhar por entre tantos caminhos pequenos foi um desafio: alguns levavam às casas, outros às praias, mas, no fim, tudo acabou se encaixando.
Fiz uma parada rápida na Praia do Crepúsculo, onde comprei uma Coca-Cola. Descansei um pouco e segui enfrentando pequenos sobe e desces. Quando já achava que não chegaria, avistei o antigo camping do Sr. Orlando e, logo adiante, nosso destino: o camping do Oliveira. Larguei a mochila e fui direto almoçar. Estava tão cansado que mal consegui comer tudo. E a “Bolota”? Estava por ali, correndo atrás de outros cachorros.
Montamos o acampamento e demos uma volta pelo entorno para conhecer melhor o local. A Vila do Cruzeiro é o principal núcleo habitado do Saco do Mamanguá e funciona como o “centro” da região. É ali que se concentra a maior parte dos serviços e da vida comunitária caiçara dentro do Mamanguá. Mas não se iluda: não há muita coisa.
À noite, nos organizamos para o dia seguinte. Conforme o planejado, acordaríamos cedo para subir o Pão-de-Açúcar do Saco do Mamanguá e, depois, seguiríamos de barco até Paraty-Mirim.
Fotos do dia 3 da Travessia da Juatinga
Dia 4 – Pão-de-Açúcar do Saco do Mamanguá e retorno
Distância aproximada: 3 km (subida e descida)
Acordamos cedo e tomamos um café. Em seguida, partimos direto para o ataque ao Pão-de-Açúcar. A entrada da trilha fica antes do antigo Camping do Sr. Orlando, e eu já havia identificado o acesso no dia anterior. O Pão-de-Açúcar se apresenta como uma ponta de pedra triangular, elevando-se abruptamente até cerca de 300 metros de altitude, dominando toda a paisagem ao redor. Havia muito tempo que eu queria fazer esse cume — e agora havia chegado a hora.
Entramos na trilha com a “Bolota” nos seguindo. Ficamos pensando em como seria quando fôssemos embora: será que ela tentaria acompanhar o barco? Bom, isso deixaríamos para depois… O foco agora era subir. A trilha é praticamente toda em subida e não dá trégua. Apesar de curta, é bastante exigente. Passamos por degraus, alguns corrimões e cordas fixas. Acabei nem parando e fiz a subida direto até o cume.
Já próximo ao topo, ao vencer a rampa final, deixamos a sombra da mata e emergimos no platô rochoso do Pico do Pão-de-Açúcar, com uma vista de 360 graus. A sensação é fantástica: dali é possível ver o mar verde‑esmeralda serpenteando entre as montanhas. O dia estava completamente aberto, o que deixou o cenário ainda mais impressionante. Fizemos várias fotos e permanecemos ali por um bom tempo, apenas contemplando.
Sem muita vontade de ir embora, tivemos que iniciar a descida. Nossa ideia era pegar o ônibus das 11h15, em Paraty‑Mirim. Descemos em ritmo rápido e logo estávamos desmontando as barracas e organizando todo o equipamento. Conseguimos fechar um barco com o sobrinho da dona do camping, que se prontificou a nos levar.
Enquanto estávamos sentados à beira da praia, aguardando a hora do embarque — já cientes de que a viagem estava chegando ao fim —, nossa amiga “Bolota” simplesmente seguiu caminhando, sem se despedir. E nós, preocupados… Tudo indica que ela já estava acostumada com as idas e vindas entre a Praia do Sono e o Cruzeiro.
Pegamos o barco e, em poucos minutos, estávamos desembarcando no cais de Paraty‑Mirim. Dali, seguimos até a igreja. Eram 10h55. Assim que chegamos, o motorista já estava entrando no ônibus para sair — 15 minutos adiantado. Por pouco não perdemos. Em seguida, fomos até a rodoviária de Paraty, pegamos o carro e iniciamos a viagem de volta.
Tudo exatamente conforme planejado nesses quatro dias fantásticos na Travessia da Juatinga.