Participantes: Leandro do Carmo, Alice Carvalho e Marcos Lima
Vídeo da Escalada na Via Infravermelho
Relato da Escalada da via Infravermelho
A Alice estava me cobrando uma escalada havia algumas
semanas, mas, por duas oportunidades, choveu no dia combinado. Como ela é que
estava me chamando, eu não queria perder a oportunidade. Ela ainda me fez um
pedido: a via não podia ser feita andando. Na escalada que havíamos feito, a
via Recuperação, ela reclamou que conseguia andar em alguns trechos. Precisava
achar uma via que fosse mais vertical, mas que não fosse tão difícil. Optei
pela via Infravermelho, no setor dos Coloridos, no Morro da Urca.
Com o cancelamento do Rio nas Montanhas, diversos montanhistas
se juntaram para organizar uma ATM (Abertura da Temporada de Montanhismo), a
fim de não deixar passar em branco essa data simbólica. A Abertura da Temporada de Montanhismo (ATM) marca o início do
período mais seguro e propício para a prática de esportes e caminhadas em áreas
de altitude. No Brasil, essa época acontece geralmente entre abril e setembro,
caracterizada por dias mais secos, menor incidência de chuvas e temperaturas
mais amenas.
Organizamos algumas cordadas, e a Alice fez questão de que
eu chamasse o Velhinho para escalar conosco. Falei com ele e fechamos nossa
cordada de três. Na noite anterior, choveu um pouco em algumas regiões do Rio e
de Niterói e, no domingo de manhã, assim que acordei, fui conferir as mensagens
e vi que já tinha gente desistindo. O Velhinho me avisou que estava chovendo em
Itaipu. Conferi o radar meteorológico e vi que havia alguns núcleos de chuva,
mas nada na região da Urca. Confiantes de que daria para escalar, seguimos para
a Urca.
Conseguimos estacionar bem o carro e aproveitamos para tomar
um café lá no Árabe Urca. De lá, seguimos para o ponto de encontro, em frente à
Praia Vermelha. Ali, dividimos as cordadas e seguimos para a Pista Cláudio
Coutinho. Um grupo foi para o Babilônia e o outro seguiu para a Face Norte do
Morro da Urca.
Entramos na rampa que dá acesso a diversas vias, e a linha
da via Vermelho estava bem molhada. Achei até que a Infravermelho também
estivesse, mas estava seca. Fomos até a base, onde nos arrumamos, e saí para
guiar a primeira enfiada. Fui subindo tranquilo por uma cristaleira e logo
protegi no primeiro grampo, seguindo uma sequência com boas agarras. Optei por
fazer enfiadas mais curtas. Montei a parada, e a Alice veio em seguida, junto
com o Velhinho. Ela subiu bem, sem problemas.
Com todos na parada e com o gelo quebrado, saí para a
segunda enfiada. Essa eu senti que foi um pouco mais difícil, apesar das
agarras sólidas e bem distribuídas. A Alice, novamente, subiu sem problemas,
conseguindo dominar bem os lances e fazer uma boa leitura. Já fiquei
despreocupado. A terceira enfiada também foi tranquila, e me surpreendi com o
quanto estava seca. Havia muita vegetação em volta. Já embaixo da grutinha, dei
segurança ao Velhinho e à Alice, que chegaram sem problemas. Nós nos desequipamos,
seguimos pela trilha e resolvemos ir até o Morro da Urca. Lá de cima, vimos o
grupo que estava na Face Norte. Pegamos uma água e seguimos descendo.
No meio do caminho, encontramos uma mulher sentada,
reclamando de muitas dores no tornozelo. A família estava lá, sem saber o que
fazer. Liguei para os bombeiros e acionei o resgate. De lá, seguimos para a
Praia Vermelha, onde encontramos o pessoal que estava reunido para comemorar a
nossa ATM. Tinha bastante gente, e valeu o esforço para organizar esse encontro.
Aproveitamos para fazer um lanche e depois seguimos embora.
Pouca gente acreditava que daria escalada, mas o dia foi
perfeito. É aquela velha máxima de que “escalada só se desmarca na base”.
Dia: 19/06/2025
Local: Niterói - RJ
Participantes: Leandro do Carmo e Hebert Calor, Rafaela, Jorge Pereira e Camila
Chaves
Vídeo da via Paredão Coringa
Relato
A Via Coringa é uma das vias mais clássicas do Pão de Açúcar, um dos cartões-postais mais icônicos do Rio de Janeiro. Localizada na face sul da montanha, essa via oferece uma experiência única de escalada, combinando técnica, beleza natural e uma vista deslumbrante da Baía de Guanabara. Foi conquistada em 1981 por Giuseppe Pellegrini, Denise Emmer e Paulo.
Já havia comentado com o Hebert sobre minha vontade de escalar a Coringa. Abri a atividade no site do Clube Niteroiense de Montanhismo e logo apareceram interessados. O Jorge se prontificou a guiar, o que me permitiu abrir mais uma vaga. A Rafaela perguntou se conseguiria fazer a via. Isso é sempre relativo, mas expliquei como era e que, caso não conseguisse, a descida seria fácil. Combinamos de nos encontrar bem cedo na Praia Vermelha. Era certo que outras cordadas apareceriam.
O dia estava firme, com uma manhã extremamente agradável. Estacionamos os carros e seguimos pela Pista Cláudio Coutinho. Chegamos rápido e nos preparamos para a subida. O Jorge formou uma cordada com a Camila, e eu, Hebert e Rafaela formamos outra. Enquanto nos arrumávamos, dei alguns betas da via. O Jorge iniciou a subida e, assim que chegou à parada, comecei a minha.
A primeira enfiada segue por uma rampa fácil, mas logo aparece um lance mais delicado. Continuei subindo até uma barriga, onde costurei e segui numa diagonal descendente até a parada. Nesse momento, o Jorge já estava saindo para a segunda enfiada. Hebert e Rafaela vieram em seguida.
Na parada, optei por fazer a variante, tendo um lance bem vertical e bonito, com boas agarras. Voltei pela diagonal e logo venci o trecho. Continuei subindo, enfrentando alguns lances mais delicados, e optei por fazer uma parada mais curta, embora não muito confortável. Hebert e Rafaela seguiram pela linha normal, sem fazer a variante. Essa enfiada foi mais difícil, e eles enfrentaram um pouco mais de dificuldade. Dali, já víamos outras cordadas se preparando para subir. Ainda bem que chegamos cedo. Comentei com Hebert sobre a diferença entre fazer uma via com lances constantes de terceiro grau e outra mais vertical — faz mesmo diferença!
Saímos para a terceira enfiada, a mais exigente. Ela segue reta, com uma longa sequência de lances de terceiro grau. A via tem pequenas agarras, mas sólidas, o que dá mais confiança. Essa parte demorou um pouco mais. A última enfiada foi tranquila, exceto pela saída, que exigiu um pouco mais de esforço.
Ao final da via, aproveitamos para descansar e curtir a vista. O dia estava extremamente agradável. Optamos por descer dali e, na volta, paramos no Árabe para um lanche. Escalar a clássica Coringa tinha que terminar com um clássico da Urca!
Via Bohemia Gelada/Chaminé Pão-de-Açúcar – CBE 2024
Dia: 07/04/2024
Local: Urca – Rio de Janeiro - RJ
Participantes: Leandro do Carmo, Alberto Porto e Silva Ptizer
Relato
Essa foi a aula de escalada longa do Curso Básico de
Escalada do CNM. Optamos por voltar a escalar no Pão-de-Açúcar por representar
um ícone da escalada brasileira e além de poder fazer cume numa via bem bonita,
uma grande aventura. Saímos cedo de Niterói com o intuito de aliviar o calor
que vinha fazendo e conseguir estacionar com tranquilidade na Urca. Já no
início da Pista Cláudio Coutinho, nos reunimos e de lá seguimos andando até
entrar na trilha. Dali, subimos até a base da Escadinha de Jacó, pois a trilha
principal está interditada, devido a um desmoronamento.
Nos equipamos e subimos, seguindo até a base das vias. Repassamos
alguns procedimentos e subi para a primeira enfiada. Fui subindo em direção a
uma cristaleira em lances bem fáceis até chegar a um ponto onde resolvi montar
a parada. Tive que ir sincronizando com a outra cordada para conseguirmos parar
em locais confortáveis e um não atrapalhar o outro.
Da nossa primeira parada, subimos até a próxima, passando
pelo grande buraco. Há tempos que prefiro passar pela lateral direita dele,
evitando passar por dentro. Passei rápido e logo estávamos na segunda parada. A
vista impressionava, estava quente, mas pela hora ainda estava tranquilo.
Vários barcos cruzando a entrada da Baía de Guanabara. Conseguíamos acompanhar
as cordadas que estavam na Heniken.
Já estava há um tempo sem escalar, mas subi bem tranquilo. A
via ajudava também. Fazer uma via fácil depois de um tempo sem escalar, dá um
pouco mais de segurança. Saí para a terceira enfiada e passei por um trecho bem
bonito, várias linhas, como se fossem rasgos na rocha. Montei a parada um pouco
para a direita, em um dos grampos da Chaminé Pão-de-Açúcar. A Silvana e o
Alberto chegaram logo em seguida.
Era hora de sair para enfiada mais bonita da via. Nesse
ponto emendamos na Chaminé Pão-de-Açúcar, até pegar a trilha do Costão. Assim
que estava saindo para a quarta enfiada, ouvi um barulho de alguém caindo, com
certeza teve uma queda. Parecia em alguma cordada da Heniken. Fiquei olhando,
mas como ninguém disse nada, segui escalando. Desviei para a esquerda e longo
entrei no trecho vertical. Optei por não costurar uma proteção que fica mais a
direita, tendo que dominar uma fenda. Dá um arrasto grande. Porém, o lance fica
mais exposto. Mas a quantidade e qualidade de agarras compensa.
Subi com cuidado. Com mãos e pés sempre bem posicionados,
fui ganhando altura, até conseguir costurar um grampo, dando mais segurança.
Havia passado o pior. Dali para cima, era mais fácil. Entrei na grande
canaleta, subindo um pouco mais e resolvi montar a parada onde fosse melhor
acompanhar os participante. Não tinha contato visual, mas foi possível gritar
para a Silvana e o Alberto, que responderam em seguida, subindo rápidos até a
parada.
Dali, já dava para ver o final da via. Faltavam poucos
metros para o platô. Na hora que o sol apertou, já estávamos nos aproximando do
fim da escalada. Escalei metros finais, dando segurança no platô. Trecho curto
onde as vias se encontram, sendo também final para Heniken. Logo em seguida, as
outras cordadas começaram a chegar e foi que descobri que o barulho havia sido
uma queda do Daniel, mas foi tudo bem, só um pequeno ralado.
Faltava apenas uma cordada, que demorou um pouco devido ao
calor. Esperamos no final do trecho de escalada da Trilha do Costão, onde
estava uma sombra agradável. Com todos reunidos, seguimos subindo até pararmos
para uma foto do grupo na Pedra Filosofal. Mais um pouco de caminhada,
estávamos no cume do Pão-de-Açúcar. Agora podia de dizer que a escalada havia
acabado. Uma grande escalada num dia maravilhoso.
Data: 29/05/2021 Local: Pão de Açúcar Participantes: Leandro do Carmo, Luis Avelar e Blanco P.
Blanco
Vídeo
Essa escalada fazia parte do nosso treino para escalar a Chaminé Cachoeiro, no Pico do Itabira. Na semana anterior, o Blanco e o Luis haviam feito a Chaminé Stop, mas eu não pude ir. Combinamos de chegar á Praia Vermelha, por volta das 8:30. Eu cheguei mais cedo, com o intuito de arrumar uma vaga para estacionar, mas não foi nada fácil. Acabei deixando o carro lá perto da mureta... Um pouco longe... Aproveitei para tomar um café da manhã e de lá, fui para o nosso ponto de encontro.
O Luis chegou em seguida e depois o Blanco. Com tudo pronto, seguimos para a Pista Cláudio Coutinho. Dali, caminhamos até a base. Optamos por fazer a primeira enfiada da Lagartão. A via Lagartão já foi considerada um das vias mais difíceis do Brasil e sua conquista foi muito arrojada. Já na base, nos arrumamos e o Blanco seguiu guiando num trecho mais exposto e com proteções móveis. Em alguns lances foi bem devagar... De baixo, já imaginava o que viria pela frente!
Depois de um tempo, o Blanco chegou à parada e foi minha vez de subir. A saída foi bem tranquila e logo entrei na primeira fenda de meio corpo, bem apertada. Há algumas agarras que ajudam na progressão. Um pouco mais acima, outro sistema de fendas grandes, meio que entalamento de corpo. Passado os pontos apertados, cheguei a um platô, achando que estava tranquilo... Dali, segui por uma pequena passagem mais horizontal para a direita, onde fiz um lance bem delicado, numa saída negativa. As agarras são bem sólidas, mas é um lance de força e técnica, bem aéreo. Com corda de cima, foi tranquilo. Passado o trecho, já conseguia ver o Blanco na parada. E dali até ele, foi bem tranquilo.
O Luis veio logo em seguida e na parada, aproveitamos para tomar uma água e o Blanco escalou mais uns 10 metros até o ponto onde faríamos o rapel até a Gallotti. Iniciamos o rapel que é meio rapel, meio escalada... Não é muito confortável, mas chegamos lá, estávamos entre a P2 e a P3 da Gallotti. Dali seguimos subindo com o Luis guiando. Subi por uma chaminé bem suja e alguns blocos encaixados bem bonitos, me lembrando o filme 127 horas... Alguns lances foram bem apertados. Uma grande aventura...
Escalamos tranquilos até a P5 da via. Estávamos próximos da Oposição da Meia Lua. O Luis saiu para guiar e passou um veneno na virada. Seguiu escalando e aí começaram os problemas. Quando ele saiu do nosso campo de visão, a corda não subia mais. Estava parada. Passamos um longo tempo esperando, pois ele poderia estar num lance mais delicado, mas nada... Resolvi ligar e ele me disse que a corda estava presa e não conseguia puxar e que estava numa posição ruim. Depois de alguns minutos, liguei novamente e ele havia prendido a corda. Então montei a segurança com o pedaço de corda que tínhamos e o Blanco saiu guiar o trecho e tentar liberar a corda para o Luis puxar.
Com isso, o tempo foi passando e a escalada que era para ser tranquila e terminar durante o dia foi ficando no limite. Quando o Blanco chegou à chapeleta após o lance da Meia Lua, eu subi. Cheguei mais acima e no lance de domínio para chegar à chapa, entrei de mal jeito e apoiei a costela meio de lado. Estava em um bico de pedra e o peso do corpo foi esmagando. Na hora, a dor foi grande, mas tinha que continuar. Na chapeleta, o Blanco subiu e aí descobrimos o porquê da corda estar presa: ela estava por cima de um degrau, fazendo um “L”. Não iria correr nunca naquela posição. Liberada a corda, o Luis montou a parada num bico de pedra e dali seguimos subindo.
Quando cheguei à parada, senti que não estava nada bem. Mas a maior preocupação era outra: terminar a escalada com luz do dia. Antes de chegarmos ali, até cogitamos descer por conta do horário, mas também não seria nada fácil. Cometemos um erro gravíssimo: só tínhamos uma lanterna! Ou era subir rápido, ou escalar a noite... Nossa opção foi subir rápido, claro!
Depois de beber um água e comer alguma coisa, o Blanco saiu guiando. Na parada, fui logo em seguida. A chaminé já começa apertada e não é simples. Iniciei um pouco mais para dentro e depois fui saindo, passei pela chapeleta e segui tocando para a direita, numa diagonal, até chegar numa espécie de banco confortável. Dali, já via o Blanco na parada. Faltava pouco!!!!!
O Luis veio em seguida e pedi para ele parar um pouco mais abaixo. Guiei esse último trecho e passar da parede para a entrada foi um lance bem exposto. Dominei um degrau, até alcançar uma pequena árvore na esquerda. As pessoas maiores talvez tenham mais facilidade. Dali, subi pela trilha até onde achei um local mais confortável para dar segue ao Blanco, que veio logo em seguida. Foi chegar, dar uma arrumada na corda e a noite foi chegando. Em cima do laço!
O Blanco passou por mim foi direto para cima. O Luis veio depois e quando ele chegou onde estava, recolhi o que sobrou de corda e subi também. Tudo resolvido! Arrumamos a corda já completamente no escuro e com ajuda da luz do celular. Subimos mais um pouco até chegar á trilha e poucos metros depois, já estávamos no cume do Pão de Açúcar. Descemos de bondinho e paramos no Árabe para lanchar. Foi uma escalada em tanto. Uma escalada de aventura. Um excelente treino para o Itabira... Mal sabia que a minha costela daria trabalho...
O mistério da múmia da Gallotti, que intriga estudiosos
quase 70 anos após ser achada no Pão de Açúcar
O mistério teve início na manhã de 19 de setembro de 1949.
Lá pelas sete da manhã, cinco amigos - Antônio Marcos de Oliveira, Laércio
Martins, Patrick White, Ricardo Menescal e Tadeusz Hollup - se encontram na
Praça General Tibúrcio, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, para escalar o Pão
de Açúcar.
Não era uma escalada como outra qualquer. Em vez de
simplesmente subir o paredão de 396 metros de altura por uma das três vias de
acesso já desbravadas, os montanhistas, membros do Clube Excursionista Carioca
(CEC), decidiram explorar uma quarta trilha, ainda mais perigosa e arrojada que
as anteriores.
"Durante anos, foi considerada a mais difícil escalada
do montanhismo brasileiro."
Ainda na clareira que dá acesso ao paredão, Hollup, então
com 19 anos, começou a desconfiar de que algo estava errado quando viu um
sapato de mulher, deteriorado pelo tempo, em plena Mata Atlântica.
"Será que, daqui a pouco, vamos encontrar a dona do
sapato?", perguntou ele, em tom de brincadeira.
"Mesmo assim, não dei muita importância. Joguei o
sapato fora e continuamos a subir", explicou em sua última entrevista,
dada ao programa Esporte Espetacular, da TV Globo, em 22 de outubro de 2017.
Tadeusz Hollup, o último dos desbravadores da chaminé
Gallotti, morreu no dia 27 de agosto de 2018, aos 88 anos.
Havia um cadáver no meio da escalada
Alguns metros acima, Oliveira, o caçula do grupo, com 18
anos, já desbravava a encosta do morro. Dali a pouco, por volta das 11h30, se
deparou com um cadáver, preso pela garganta, numa fenda estreita da rocha,
apelidada de "chaminé" pelos alpinistas.
Ao contrário do que se poderia imaginar, o defunto não
estava em estado de putrefação e, sim, "mumificado".
"Quando o vento bateu mais forte, o cabelo dele, que
era enorme, pousou no meu ombro. Foi aí que vi que era uma pessoa. Fiquei
apavorado!", relatou Oliveira no documentário Cinquentona Gallotti (2004),
escrito e dirigido por Priscilla Botto e Paulo de Barros.
Na mesma hora, berrou para os amigos: "Ó, tem uma
pessoa morta aqui!".
Hollup e Menescal caíram na gargalhada. "Que história é
essa?", quis saber Hollup, aos risos.
"Achou a dona do sapato?", fez graça Menescal. Os
dois levaram na brincadeira. Mas Oliveira, não. Quando chegaram ao local,
tomaram um susto daqueles. A coisa era séria mesmo.
Diante da "descoberta" macabra, os amigos
resolveram suspender a escalada e avisar a polícia. A tão sonhada conquista da
chaminé Gallotti - proeza alcançada só cinco anos depois, em 1954 - teria que
ficar para outro dia.
A "descoberta" da múmia virou notícia em todos os
jornais. Para espanto geral, o laudo, assinado pelo médico-legista José Seve
Neto, desfez o mal-entendido: o cadáver não era de mulher, como imaginado
inicialmente por causa da vasta cabeleira, mas de um homem.Na manhã seguinte, os cinco voltaram à Urca, acompanhados de
policiais, repórteres e legistas. Munidos de grampos, martelos e brocas,
desceram o corpo da "múmia" até a clareira, onde estavam os
bombeiros. Naquela época, os escaladores usavam cordas de sisal e coturnos com
tachas. Tudo muito rudimentar para os padrões atuais.
Segundo a nota publicada na edição do dia 20 de setembro de
1949, do jornal O Globo, os restos mortais pertenciam a "indivíduo de cor
branca, com 35 anos presumíveis, de 'compleixão' (sic) franzina e com 1,60 m de
altura".
Ainda de acordo com o laudo, o defunto, que vestia um suéter
e uma camisa sem mangas de algodão, não apresentava sinais de fratura, nem
vestígio de bala ou facada. E o pior: não trazia documentos.
"Os legistas concluíram que o cadáver estava lá havia
uns seis meses, pelo menos", relata Oliveira.
"Foi mumificado devido à maresia."
O químico Emiliano Chemello, da Universidade de Caxias do
Sul (UCS), explica que a maresia pode ter ajudado, sim, na mumificação do
cadáver. Isso porque o sal presente nela absorve a água, retardando processo de
decomposição do corpo.
"Os antigos egípcios usavam um minério chamado natrão,
rico em carbonato de sódio. Eles empacotavam o natrão, em pequenas bolsas,
dentro do corpo da múmia, além de jogarem um punhado do minério sobre o
cadáver. Quarenta dias depois, o defunto estava encolhido e duro", diz.
Que fim levou a 'múmia' carioca?
Apesar de toda a repercussão nos jornais da época, nenhum
amigo, parente ou familiar apareceu no Instituto Médico Legal (IML) para
reconhecer o corpo. De quem era o cadáver encontrado na chaminé Gallotti?
Ninguém sabe. A identidade da "múmia", sete décadas depois, continua
ignorada.
Mas essa é apenas uma das muitas perguntas sem resposta.
Outra: como foi parar lá? Há várias hipóteses: de suicídio a assassinato. Para
o extinto jornal A Noite, um dos muitos a cobrir o caso, os restos mortais
pertenciam a um mendigo que teria se jogado morro abaixo.
Rodolfo Campos, roteirista e diretor do curta A Múmia
da Gallotti (2009), tem outra versão: "Por ser um homem vestido de
mulher e ter os cabelos compridos, suspeito que fosse um travesti que, talvez,
estivesse fugindo de alguém ou tentando se esconder na mata. Mas é impossível
afirmar com certeza".
Será que, no fim das contas, o mistério da "múmia"
carioca esconde um caso de transfobia?
Há quem sustente, ainda, a tese de que o corpo seria de
algum morador de uma favela próxima, localizada entre o Morro da Urca e o Pão
de Açúcar.
O historiador Milton Teixeira, da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (UERJ), rebate essa teoria. Ele explica que, naquele local, há
uma caverna e que, nos anos 1940, morou ali um português que vivia da pesca e
da venda de artesanato. Nos anos 1960, o tal eremita ganhou a companhia de um
casal de retirantes cearenses.
"Em 1968, os militares ordenaram a saída dos três e
hoje, na caverna, vivem apenas morcegos", arremata o historiador.
Outra pergunta intrigante: que fim levou a "múmia"
do Pão de Açúcar? Tudo indica que, a exemplo das peças egípcias que faziam
parte do acervo de 20 milhões de itens do Museu Nacional, teve destino trágico.
A diferença é que, em vez de ter sido consumida pelas chamas de um incêndio,
teria sido sepultada como indigente por falta de documentação e reconhecimento
familiar.