Participantes: Leandro do Carmo, Leonardo Carmo, Leandro Conrado e Ricardo Bemvindo
Histórico e Curiosidades
O sistema lagunar de Maricá é composto por um complexo de quatro lagoas principais interligadas, que se estendem paralelamente ao litoral.
Principais Lagoas e Localizações
Lagoa de Guarapina: Fica na extremidade leste do complexo, banhando os bairros de Ponta Negra, Bambuí e Cordeirinho. É conectada ao mar pelo Canal de Ponta Negra.
Lagoa do Padre: Uma lagoa menor situada entre a Lagoa da Barra e a de Guarapina, próxima ao bairro de Cordeirinho.
Lagoa de Jacaroá: Embora tecnicamente um braço ou enseada da Lagoa de Maricá, é frequentemente tratada de forma individual devido à sua fama pelo fenômeno da bioluminescência (águas que brilham no escuro), observado recentemente em 2025 e 2026.
Lagoa de Maricá: É a maior do sistema, banhando o distrito-sede e bairros como Araçatiba (onde fica a famosa orla de lazer), Itapeba, São José do Imbassaí e Marine.
O Complexo Lagunar de Maricá é um dos mais importantes sistemas lagunares costeiros do estado do Rio de Janeiro. Localizado no município de Maricá, na Região Metropolitana Leste Fluminense, o conjunto de lagoas se estende paralelamente ao litoral, entre o Oceano Atlântico e a Serra da Tiririca, formando uma paisagem singular que combina água doce, água salobra, restingas, manguezais e áreas de Mata Atlântica.
Vídeo da Travessia das Lagoas de Maricá de caiaque
Relato da Travessia das Lagoas de Maricá de caiaque
Já havia tentado marcar essa remada, atravessando as Lagoas de Maricá, há um bom tempo. Mas a logística sempre foi um fator complicado. Fazer isso sozinho, era quase impossível. O tempo foi passando e nos últimos anos, com o grande processo de urbanização promovido pela prefeitura de Maricá e financiado pelos royalties do petróleo, foi ficando mais fácil conseguir montar o roteiro. Analisei as imagens de satélite e foi possível dividir o percurso em quatro partes: Ponta Negra x Bambuí, Bambuí x Guaratiba, Guaratiba x Boqueirão e Boqueirão x Amendoeiras. Todos os trechos com, aproximadamente, a mesma distância. O roteiro estava pronto, mas ainda existia a dúvida se seria possível cruzar os canais. A dúvida é se eles estariam assoreados.
Durante a Travessia da Juatinga, eu, meu irmão, Leandro Conrado e o Ricardo, combinamos de fazer essa remada. Definimos a data e acertamos toda a logística. Fez bastante calor durante a semana e optamos por chegar bem cedo e começar a remar logo, pois por volta das 9h o calor já estava insuportável. Nos encontramos no caminho e deixamos um carro no ponto onde terminaríamos a remada, assim poderíamos voltar e pegar os carros que deixaríamos no início da remada.
Atrasamos um pouco e começamos a remar às 6h 40 min. Um pouco depois do que havíamos programado. O tempo estava levemente nublado. Não ventava. Olhava e via a lagoa bem lisa, sinal de remada tranquila. Com tudo pronto, fomos para a água. Saímos bem ao lado da boca do canal. Esse primeiro trecho remaríamos pela lagoa de Guarapina, até a orla de Bambuí. Esse trecho foi tranquilo, foi remada para aquecer. Eu e meu irmão desenvolvemos bem, mas o Ricardo e o Leandro ficaram um pouco para trás, pois estavam num caiaque duplo aberto e ele não tem um desempenho tão bom.
De longo não era possível ver a entrada do canal de Bambuí, mas à medida que fomos nos aproximando, foi possível vê-lo. Logo na entrada, passamos pelo deck de Cordeirinho e seguimos pelo canal. Avançamos e entramos num trecho onde estávamos ao lado eu uma rua, já em área urbana. Cruzamos uma ponte e chegamos ao ponto onde havia marcado para fazer a primeira parada. Nem chegamos a desembarcar, pois não havia um bom local. Bebemos uma água e descansamos um pouco.
De volta a remada, entraríamos no ponto de maior dúvida da travessia: a ligação entre o canal e a Lagoa do Padre. Seguimos remando e cruzamos com alguns grupos de Flamingos, num espetáculo a parte. Nesse trecho, já chegando à Lagoa do Padre, a profundidade despenca para alguns centímetros e em alguns pontos o fundo do caiaque arrastava. Era preciso tomar cuidado e escolher o melhor caminho para não ficar preso. O fundo era de lama e quando arrastava o remo, via aquele lodo subir. Nesse trecho também percebi que havia tido alguma obra de desassoreamento, pois nas bordas, havia vários depósitos de areia. Ainda bem que tinham trabalhado no local, acho que seria bem difícil ter passado ali há um tempo. Do outro lado, mais um grupo grande de Flamingos e próximo a gente, um grande grupo de aves. Tentei me aproximar um pouco, mas o caiaque encalhou. Voltei e continuei a remada.
Depois desse trecho, entramos na lagoa do Padre e as condições não melhoraram. Continuava um trecho raso e tínhamos dificuldade em remar. Ainda bem que foi o trecho razoavelmente mais curso, se comparado aos outros. De longe conseguíamos ver uma ponte e seguimos em direção a ela. Após passar a ponte, entramos no canal de que liga essa lagoa a de Jacaroá. Mais a frente consegui avistar vários barcos, estávamos chegando à Orla de Guaratiba, nosso segundo ponto de parada. Segui até ele e desembarquei. Esperamos o Leandro e o Ricardo chegarem. Aproveitamos para fazer um lanche e descansar. Ficamos ali durante um tempo até que voltamos para a remada, ainda falta um bom trecho.
De volta a água, continuamos no canal e entramos na lagoa de Jacaroá. Atravessamos um longo trecho. Cruzamos a Ponta da Divinéia. Estávamos no trecho mais bonito e preservado de toda a travessia. Depois de ter atravessado o pior, compensou passar aqui. À esquerda, uma bela enseada que merecia uma visita, mas ficará para uma próxima. Cruzamos com alguns pescadores e de lá, seguimos para a enseada da Lagoa do Boqueirão. Ali tem uma excelente estrutura, a melhor de toda a travessia. O Ricardo e o Leandro demoraram um pouco para chegar. Lanchamos e descansamos bem para o último e mais longo trecho da remada. Nesse, não teríamos ponto de apoio. Até agora, seria fácil parar e descansar em algum lugar, caso precisássemos. A travessia agora era direta e pelo meio da maior lagoa do complexo lagunar de Maricá.
Voltamos para a remada. Pela previsão, entraria um vento leste que estaria totalmente a favor da remada. Cruzamos a ponte do Boqueirão e entramos na Lagoa de Maricá. Começamos juntos, mas logo nos distanciamos. E a previsão acertou, o vento começou a apertar e começou as marolas. Como estava a favor, tudo tranquilo. De longe consegui avistar uma ilhota. Era uma que já queria passar por ela, desde quando havia planejado a remada. Segui até ela, mas não desembarquei. Segui remando e fui me aproximando de uma enseada, mas estava percebendo alguma coisa diferente. Quando cheguei mais perto, vi que não era a de Amendoeiras, tivemos que ajustar a rota e seguir remando.
Cruzamos um morro e logo entramos num trecho mais abrigado. O vento mais fraco no local deu um refresco. Seguimos remando até um pequeno píer. Eu e meu irmão esperamos o Leandro e Ricardo chegarem. Colocamos os caiaques na calçada, procuramos uma sombra. Aí foi esperar a logística dos carros.
Enfim havia saído a tão esperada Travessia das Lagoas de Maricá. Agora sei que é possível atravessar remando. Qual será próxima remada?
Data: 27/09/2025 Local: Itaocara – RJ Participantes: Leandro do Carmo, João Carvalho e Alice Carvalho
Vídeo do XIV Encontro dos Amigos da Canoagem
Relato da remada
Esse encontro teve um sabor especial. Foi a primeira
vez que remei com o João e com a Alice. Eu havia ido a Itaocara para participar
do Primeiro Passeio Ecológico – Itaocara x Portela, e o João já estava pedindo
para descer o rio. Ao ver que o irmão iria, a Alice também começou a pedir. Tive
que dar um jeito de agradar os dois!
Como minha mãe resolveu ir no rafting, coloquei a Alice no
bote junto com ela. Consegui um duck com o Jefferson, o que facilitaria a
descida com o João. Estava tudo organizado.
Todo mundo foi na sexta-feira à tarde. Eu fui com o
Jefferson no ônibus das 19h15. A viagem foi tranquila. Ficamos na casa do
Jefferson, à beira do rio Paraíba, e ainda deu tempo de descansar um pouco.
Tivemos que acordar cedo, pois o evento estava marcado para as 8h. Arrumamos
tudo e seguimos até o Porto do Tuta, na Fazenda Paulo Gama, onde nos preparamos
e organizamos os equipamentos para a remada. O duck estava com um furo, então
sabíamos que precisaríamos parar de vez em quando para enchê-lo.
Chegou a hora de entrar na água. Entrei com o João e demos
as primeiras remadas. Paramos em frente à balsa para a foto e o tradicional
grito de guerra: “Rio Paraíba do Sul, vivo!”. Dali seguimos remando,
aproveitando o lento fluxo do rio. A Alice parecia não estar muito satisfeita
no bote, pois havia ficado no banco do meio, sem remo. Era apenas uma
passageira e, ativa como é, eu sabia que ela queria remar também.
Esse primeiro trecho foi bem tranquilo, com alguns pontos
onde a água corria um pouco mais forte — nada demais. Porém, para o João, que
estava indo pela primeira vez, já era uma aventura. Mais à frente, já era
possível perceber o início da corredeira do Urubu. Parei um pouco antes para
ajeitar tudo e encher o bote. Sem perder muito tempo, preparamos tudo e
começamos a remar, seguindo o fluxo do rio até entrar na corredeira.
O rio estava mais seco que o normal, formando um degrau mais
alto nesse início, com uma grande onda logo à frente. Meu irmão virou com o
caiaque um pouco mais adiante. Fomos até o alto e descemos com força, vencendo
esse trecho. Paramos um pouco mais abaixo, num local onde era fácil encostar o
duck.
Continuamos descendo e passamos por mais uma corredeira
tranquila. Fomos remando num dia bem agradável, sempre interagindo com outros
canoístas que passavam por nós. Mais à frente, paramos junto ao bote onde
estavam a Alice e minha mãe. Descansamos um pouco e voltamos à remada. Depois
de mais um trecho, resolvi trocar a Alice pelo João, para dar a ela a
oportunidade de remar um pouco. Ela curtiu demais! Descemos mais algumas
corredeiras e finalizamos no Porto Marinho. De lá, seguimos para o churrasco na
Cabana do Peixe Frito, para a confraternização.
Enfim, depois de muito tempo, consegui colocar o João e a
Alice para remar no Rio Paraíba do Sul!
Dia: 14/12/2024 Local: Ilha Grande - RJ Participantes: Leandro do Carmo e Jefferson Figueiredo
Vídeo
Relato
Ilha Grande é um verdadeiro paraíso localizado na Costa
Verde do Rio de Janeiro, no município de Angra dos Reis. Com uma área de 193
km², é a maior ilha do estado e a sexta maior ilha marítima do Brasil. Já fui à
Ilha Grande diversas vezes, conhecendo locais fantásticos. Mas chegar à ilha
remando, ainda não havia feito e estava na minha lista fazia tempo. Falta
arrumar companhia. Eu já havia conversado com o Jefferson sobre essa remada e
de vez em quando falávamos sobre. Em novembro, havia surgido, enfim, uma data
possível.
Remar de Conceição de Jacareí até Abraão não é uma tarefa
das mais complicadas. São aproximadamente 12 km. Na semana anterior, estávamos
preocupados com as condições do tempo, pois o Jefferson iria com a família e ficaria
alguns dias a mais. Mas a previsão melhorou e confirmamos nossa ida. Na sexta
feira a noite, amarramos os caiaques em cima do meu carro. No sábado cedo
pegamos a estrada e seguimos para Conceição de Jacareí. Ele chegou um pouco
mais cedo e nos encontramos numa padaria próximo à estrada. Dali seguimos para
o local onde estacionamos os carros.
Dali da praia, conseguia ver o Pico do Papagaio e com isso,
ficava fácil identificar a vila de Abraão, nosso destino. Arrumamos tudo e
levamos os caiaques para água. Era aproximadamente 9h 30min quando começamos a
remar. O dia estava nublado, mas firme. Aquela condição bem agradável.
Rapidamente, contornamos a Ilha da Sororoca, que fica em frente a Conceição de
Jacareí. O mar estava liso, com pequenas ondulações. Uma leve brisa soprava.
Remamos até chegar ao balizamento do canal entre o continente e a Ilha Grande.
Foi ali que fizemos nossa primeira parada rápida. Nem sinal de navio, então era
remar e cruzar logo o canal. Falo isso, pois já tive algumas experiências de
ver um grande navio e achar que dá para cruzar o canal antes dele chegar.
Engana bastante e num piscar de olhos ele já está em cima. Só que um grande
navio não tem freio como um carro e um caiaque na água é quase imperceptível.
Risco grande de um acidente.
Remamos e logo havíamos passado o outro balizamento,
indicando que já estávamos fora do canal. O silêncio de vez em quando era
quebrado pelas embarcações que faziam o transporte de passageiros para a Ilha
Grande. Em alguns momentos nos afastávamos, mas logo estávamos juntos
novamente. O ideal é estar sempre o mais próximo possível. Já próximos à
entrada da enseada do Abraão, uma corrente mais forte nos obrigava a corrigir o
rumo constantemente. Mais alguns minutos e estávamos em frente à praia do
Abraão.
Procuramos um melhor local para desembarcar e acabamos
saindo em frente ao largo onde fica à Igreja de São Sebastião. Foram cerca de
2h 30min de remada. Já na areia, descansei um pouco e levamos os caiaques para
guardar no Hostel onde eu me hospedaria. Carregar aquele peso foi a parte mais
difícil. Até tentamos carregar os dois juntos, mas não deu muito certo. O
hostel ficava logo após a ponte e demorei um pouco para encontrá-lo. Me
surpreendi com a quantidade de pessoas circulando pelas pequenas ruas e vielas
de Abraão. Até barulho de carro e máquinas eu estava ouvindo. Coisa que
pareceria impossível, se comparado à primeira vez que estive ali, em 2002. Esse
trecho que tive que caminhar carregando o caiaque me cobrou um preço. Senti um
pouco as costas, mas só sentiria mesmo no dia seguinte.
Com tudo arrumado, tomei um banho e arrumei as coisas. Dei
uma volta pela vila e nos encontramos para almoçar, bem próximos de onde
ficamos hospedados. Após o almoço, andei até a praia e descansei um pouco num
banco em frente à praia. À noite, ainda comemos uma pizza e fui dormir cedo,
pois voltaríamos no dia seguinte.
Amanheceu chovendo. Havíamos combinado de tomar café da
manhã numa padaria próxima, mas resolvemos esperar mais um pouco, até que a
chuva passasse. Isso atrasou um pouco nossa saída. A dor nas costas estava um
pouco mais forte e estava com um hematoma na lateral do quadril, justamente
onde o caiaque encostava na hora de carregar. Com isso, levamos um caiaque de
cada vez do hostel até a praia. Arrumamos tudo, fizemos algumas fotos e
iniciamos nosso retorno. Saímos um pouco mais pela esquerda, aproveitando um
pouco mais a remada.
Remamos bem e fui tentando encontrar o balizamento do canal.
Mas de longe, fica imperceptível. Mais um pouco remando e consegui avistar de
longe. Nas minhas contas, metade do caminho. Seguimos no rumo da Ilha da
Sororoca. As ondulações estavam um pouco maiores que no dia anterior, mas nada
que preocupasse. Estávamos um pouco mais distantes. As costas incomodavam um
pouco, mas estava próximo do fim.
Aos poucos a praia foi se aproximando e o fluxo de barcos
aumentou consideravelmente. De longe, vi o Jefferson parada já bem próximo da
ilha. Cheguei perto e parei também para dar uma descansada. Faltavam poucos
metros. Comemoramos o sucesso da remada e fizemos os últimos metros bem devagar.
Já na praia, levamos os caiaques para cima e arrumamos tudo. Deu um pouco de
trabalho, mas não tinha jeito. Tomei um banho para relaxar e aproveitamos para
almoçar um peixe frito num quiosque em frente ao estacionamento. Dali, o
Jefferson seguiu para o cais, retornando para Abraão, pois iria embora somente
na terça feira. Eu, peguei a estrada de volta para. Enfim, consegui chegar à
Ilha Grande remando.
Nem tudo são flores... Essa foi a minha sexta participação
no Encontro dos Amigos da Canoagem de Itaocara. Sempre deu tudo certo, mas
sempre tive a certeza de em algum momento alguma coisa poderia sair do
planejado. O importante é sempre avaliar e entender os riscos, afinal de
contas, no ambiente natural, as variáveis são muitas e nem sempre conseguimos
cuidar de todas, basta uma negligência e pronto...
Peguei o último ônibus para Itaocara na rodoviária de
Niterói. Dormi a viagem inteira e quase passei do ponto, acordei no susto.
Segui para a Pousada 20V, um pouco após o centro de Itaocara. Meus pais, meus
filhos, meu tio e meu irmão já estavam lá. Inclusive, eles haviam passado em
Além Paraíba para pegar um caiaque que eu havia comprado para remar o terceiro
trecho, entre São Fidélis e Atafona. Já havia remado em 2023, o trecho Porto
Velho do Cunha x Itaocara e em 2024, o trecho Itaocara x São Fidelis. O objetivo
era fechar 2025, remando os trechos São Fidélis x Campos e Campos x Atafona.
Mas para isso, precisaria de um caiaque adequado.
O dia estava clareando quando cheguei à pousada. Sentei-me
no banquinho ao lado de fora e aguardei um pouco. Assim que a dona abriu a
porta para ir comprar o pão para o café da manhã, eu entrei. Fui para a varanda
da pousada e percebi o quanto o rio estava seco. Aos poucos todos foram
acordando e logo tomei meu café da manhã. Eu e meu irmão fomos na frente,
direto para o Porto do Tuta, na Fazenda Paulo Gama. Diferentemente dos anos
anteriores, não pararíamos em Porto Marinho.
Aos poucos, os carros foram chegando e o local que estava
vazio ficou cheio de caiaques espalhados. Nos reunimos e fizemos o já
tradicional grito de guerra do evento: “Rio Paraíba do Sul, Vivo!”. Dali,
seguimos para os preparativos finais antes de ir para a água.
Ajustei tudo e fomos para água. Assim que entrei, lembrei
que estava sem capacete. Primeiro erro do dia. O Jefferson me lembrou disso um
pouco mais a frente, mas já era tarde. Como descemos por alguns trechos com
pedras, ter o equipamento de segurança é fundamental. Iniciamos a remada. Tinham
menos caiaques que o ano passado, mas estava bonito.
Estava bem com o caiaque novo e fui remando tranquilo. Na
primeira corredeira, fui atrás de um bote de rafting e ele atravessou bem na minha
frente e acabei virando. Consegui desvirar o caiaque e levar para a margem.
Tive um pouco de dificuldade para tirar a água dele, mas consegui ajuda. De
volta para a água, continuei a remada e logo chegamos à Corredeira do Urubu. Dei
uma parada antes e fiquei no aguardo da melhor oportunidade.
Assim que diminuiu a quantidade de caiaques, resolvi descer.
Remei forte para pegar velocidade. Venci o primeiro degrau e logo na primeira
onda, perdi o controle e acabei virando. Com a força da água, não consegui desvirar
o caiaque que acabou enchendo de água. Com isso a proa afundou, deixando só a
popa, que tem um compartimento estanque, para fora. Eu continuei descendo o rio
e fui parar só mais embaixo.
De longe, vi algumas pessoas ajudando a tirar o caiaque da
água e colocando em cima das pedras. Pensei: “só chegar lá, tirar a água e
continuar a remada”. Mas quando eu cheguei perto, vi o estrago. A proa estava
completamente destruída. Não tinha como continuar. Nem acreditava que tinha
destruído o caiaque nos primeiros 30 minutos de uso!
Dali, fui carregando o caiaque pela margem, com bastante dificuldade,
até chegar a uns carros que estavam parados. Ali descansei um pouco e fiquei
esperando, pois só iria ter resgate depois que todos terminassem a remanda e
voltassem para pegar os carros estacionados. Por sorte, os carros que estavam
parados eram de pessoas que estavam acompanhando o evento e consegui levar o
caiaque até Porto Marinho.
Avaliando depois, vi que tinha esquecido de colocar algumas
boias por dentro para evitar que ele afundasse de proa quando entrasse água. Meu
segundo erro. De qualquer forma, já estava feito o estrado. Cheguei à Porto
Marinho, quase junto com o pessoal. Ali, amarrei o caiaque no carro e seguimos para
o churrasco. Nesse ano, foi realizado no belíssimo sítio Cascata, em Aperibé.
Mais uma excelente festa, como música ao vivo da banda Beija Flor Noturno.
Foi uma participação curta, mas fica o aprendizado: nem tudo
são flores...
Foi em Junho de 2022 que remamos o trecho de "PortoVelho do Cunha x Itaocara", totalizando 56 km. Nossa idéia era fazer um
trecho por ano até chegar à barra do Rio Paraíba do Sul, em Atafona. Porém, em
2023, não conseguimos pôr em prática nosso objetivo, mas esse ano saiu. Até que
foi meio no susto, cosa do tipo: “Pode na outra semana?”, mas se não for assim,
acaba não saindo. Confirmando a data, compramos logo a passagem de ônibus para
Itaocara. Agora sim estava marcado!
Aproveitamos que estava uma janela de tempo extremamente
favorável, com tempo firme. Fazia calor e o único problema seria o sol forte
por volta das 12 horas. Mas dentro d’água podemos nos refrescar a qualquer
momento. Na noite de sexta feira, fizemos as compras para o lanche e preparamos
todo o equipamento. A logística foi diferente: sairíamos de Itaocara e dessa
vez não teria muita correria e nem ter que acordar na madrugada. Marcamos de
nos encontrar às 6 horas 30 minutos na sede do Kayak & Sup Club, em
Itaocara.
Chegamos lá e na hora de pegar os caiaques, o que iria usar
não estava no clube. A solução foi utilizar outro do Markley, não tão
apropriado para remadas longas. Mas era isso ou desistir. Como Desistir não
estava nos nossos planos, preparamos tudo e colocamos os caiaques na água, já
fazendo a foto de partida. Era uma manhã bonita e a Serra da Bolívia nos da um
excelente bom dia. A água do rio Paraíba estava exuberante e numa temperatura
extremamente agradável, difícil ter condições melhores.
Era 7 horas e 30 minutos quando iniciamos nossa remada. Aos
poucos fomos deslizando pelas águas do Rio Paraíba do Sul rumo ao nosso
destino... As águas que no extremo sul do país estão causando tanto desastre,
aqui nos proporcionam tanto prazer. É o contraste que a vida nos dá. Seguimos
descendo e logo estávamos cruzando a Ponte Ary Parreiras, que liga Itaocara à
Aperibé. Seguimos passando por pequenas corredeiras num bom ritmo. Já sentia
bastante o caiaque. Mantê-lo no rumo me obrigava a fazer um esforço extra e lá
na frente isso cobrou seu preço. Remava sempre um pouco mais atrás, isso para
mim até facilita, pois vejo sempre o caminho que eles fazem e sigo com mais
calma.
Logo deixamos o centro da cidade e voltamos a remar com
poucas construções nas margens, trazendo aquela sensação de estarmos
literalmente fora da civilização. Fizemos uma parada rápida e logo voltamos
para a água. Mais à frente, entramos num trecho bem fechado com pequenos
canais. Difícil para quem nunca passou ali identificar qual seria o melhor
caminho. Mesmo já conhecendo, o Markley errou o caminho e tivemos que voltar e
pegar um canal mais estreito, passando por diversos galhos que dificultavam um
pouco a progressão.
Seguimos descendo o rio por entre pequenas corredeiras num
silencia total, até que ele foi quebrado pelo som de alguns carros, cruzando as
estradas que seguem paralelas ao rio. Logo chegamos à Portela, Distrito de
Itaocara. As pessoas ainda dormiam e havia pouco movimento. Passamos
rapidamente pelo distrito de Portela e começamos a pegar muita água parada. Não
estava fácil remar naquele caiaque, mas fui seguindo. De um ponto, o Markley
falou: “Olha lá a ponte de Cambuci!”. Juro que fiquei procurando, mas como não
via nada, fiquei na minha. Só depois que ele disse que era brincadeira, fazendo
isso só para motivar. No alto de um morro, na margem esquerda, dava para ver
uma casinha e o Jefferson me disse que era a referência da ponte de Cambuci.
Agora sim estava perto.
Ia sempre remando num ritmo mais lento que os outros, mas
sempre antes de alguma corredeira alguém me esperava para dar um auxílio, caso
necessário, afinal de contas era o menos experiente do grupo. Passamos pela
ponte de Cambuci e remamos por trechos com bastante água parada. O calor foi
aumentando e a todo momento tinha que jogar uma água na cabeça. Passamos o
centro de Cambuci e já estava bem cansado quando fizemos uma parada rápida. O
local era bem bonito, assim como inúmeros pelo qual passamos. Aproveitamos para
comer algo rápido, nossa parada para almoço seria mais a frente. Aproveitei
para trocar caiaque com o Markley. Como o caiaque era dele, talvez ele
estivesse mais acostumado. Para mim ficou mais fácil, o caiaque era parecido
com o TS, na qual havia remado no trecho Porto Velho do Cunha x Itaocara.
Voltamos para a água e já nas primeiras remadas senti
bastante diferença. Foi um alívio. Mais à frente, comecei a ouvir um
barulho forte de água, chegávamos à Cachoeira do Romão. Uma corredeira forte,
com grandes ondas que segue numa curva. Jefferson e o Mateus desceram algumas
vezes, eu e o Markley optamos por fazer a portagem sobre as pedras e voltar a
remar uma pouco mais abaixo. Descemos o final da corredeira e num remanso
fizemos nossa parada para o almoço. O local era bem bonito e agradável. Demos
uma boa descansada, mas já era hora de voltar a remar. Estávamos mais ou menos
na metade do caminho, havíamos remado cerca de 28 km. Lá fundo conseguia ver
uma formação rochosa bem bonita. Não sabia exatamente se era naquela direção
que iríamos, mas minha intuição dizia que sim e acabei tomando-a como referência.
Depois de um bom lanche, voltamos para água, ainda tinha
muito rio para remar. Continuamos passando por lugares fantásticos. As
corredeiras diminuíram de intensidade. Para mim foi até melhor, visto que
precisava remar com mais força durante a descida e já estava cansado. Pegamos
um braço auxiliar e fizemos uma parada em Pureza, 3º Distrito do município de
São Fidelis. Fomos muito bem recebidos por um senhor que morava na beira do
rio. Quando perguntamos onde tinha um bar para comprarmos água, ele nos
ofereceu várias garrafas de água gelada. Sempre com aquela excelente
hospitalidade de cidade do interior. Aproveitei para descansar e confesso que
fiquei desanimado quando fiz as contas, pois ainda faltavam cerca de 20 km para
o nosso destino.
Continuamos nossa jornada e depois de um longo trecho de
água parada, num local paradisíaco, chamei o pessoal para darmos uma parada.
Aproveitamos para descansar e rir um pouco. O bom astral dava forças para
continuar. Dei uma caminhada até uma laje e fiz um lanche bem próximo água, só
sentindo a água bater nos meus pés. O sol estava forte e já estava incomodando.
Senti alguns calos na mão esquerda, mas não quis tirar a luva. Estava com medo
de que tivesse dado bolhas. Agora era recarregar as baterias e seguir até o
final.
Passamos por diversos pontos de água parada. Para mim era
bom, remava tranquilo sem ter que forçar muito nas corredeiras. Já estava bem
cansado quando numa corredeira sem grandes dificuldades, o caiaque foi virando
e não tive forças para me equilibrar e tombei. Fui para a margem um pouco mais
a frente e com ajuda do Mateus, tiramos a água e voltamos para a água. Voltei a
remar um pouco desanimado, mas tinha que continuar, estávamos no trecho final.
Aquela formação rochosa que havia tomado como referência já estava ficando para
trás.
Fomos acompanhando uma linha de trem desativada e isso
ajudou a fazer o tempo passar. De longe já era possível ver uma ponte, pelo
formato, provavelmente era da estrada de ferro na qual vinha acompanhando.
Sinal de que estávamos chegando. Isso me deu forças. Estávamos num trecho bem
largo do rio, na qual parecia uma lagoa. Fui remando e percebi que o barulho
das águas estava aumentando, sinal de estávamos próximos de uma corredeira.
Segui o Jefferson, que foi em direção à margem esquerda. Como sempre, esperei
todos descerem e fui em seguida. Fui com bastante cuidado, não podia dar
errado. Passamos a última corredeira da remada, conhecida como “Salto”. Passada
mais essa, o Markley seguiu com o Mateus para a esquerda e eu fui seguindo o
Jefferson que ainda aproveitou uma boa onda e ficou surfando por alguns
minutos. Nos reencontramos num areal, logo após a ponte, onde paramos pela
última vez. Já estávamos bem próximos. Já estávamos no final do dia e o sol
começou a se por. Estava bem bonito. Fizemos uma foto para e seguimos para o
ponto onde havíamos combinado o resgate.
Foram mais uns 2 km até chegar à CEDAE, onde arrumamos um
local para subir. Conseguimos colocar os para cima e levamos até o carro, onde
amarramos tudo e seguimos de volta à Itaocara.
No total, foram cerca de 52 km, em aproximadamente 10 horas
de remada num dia fantástico.