Por Leandro do Carmo
Remada no Rio Paraíba do Sul: De São Fidelis à Campos
Estatísticas da remada:
Trecho remado:
Veja também os outros trechos do projeto:
O Rio Paraíba do Sul
O Rio Paraíba do Sul é um rio extenso sendo recurso extremante importante para três estados do sudeste brasileiro: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Nasce na serra da Bocaina em São Paulo e desemboca na praia de Atafona em São João da Barra - RJ possuindo 1.340 km de extensão abrangendo 150 cidades e 20 milhões de pessoas.
Ao longo de seu trecho o rio adquire várias formas e tem características bem específicas: ora estreito, ora largo, ora turbulento, ora calmo, às vezes represa e volta a ser rio, ora poluído, ora preservado, sim é isso mesmo, preservado e com mata ciliar e vegetação exuberante e é esse rio Paraíba do Sul que pouca gente conhece.
No Médio Paraíba, mais especificamente do trecho de Além Paraíba-MG a São Fidelis-RJ, o rio Paraíba do Sul possui águas turbulentas com corredeiras e cachoeiras, predominância de ilhas, é largo e com uma vegetação ciliar ainda bem preservada. Famoso pela piscosidade e referência na pesca esportiva de dourado e robalo. Em uma grande extensão não existe cidades em suas margens, o que contribuí para renovação de suas águas, além da própria oxigenação causada pelas corredeiras. Ele também recebe as águas de vários afluentes. Fonte: ACAI
Vídeo da Remada São Fidelis x Campos
Relato da Remada São Fidelis x Campos
Essa foi a terceira etapa do nosso projeto de remar de Porto
Velho do Cunha até a foz do Rio Paraíba do Sul, no balneário de Atafona, em São
João da Barra. Já havíamos vencido os dois primeiros trechos — Porto Velho do
Cunha a Itaocara, com 58,6 km, e Itaocara a São Fidélis, com 55 km. A última
remada tinha sido em 2024 e, por uma sequência de desencontros, não conseguimos
manter a ideia inicial de fazer uma etapa por ano. Estávamos atrasados. Dessa
vez, no entanto, a remada tinha que sair.
Antes de qualquer coisa, era preciso conciliar o período em
que o Markley não estivesse embarcado. Resolvido isso, veio a parte mais
trabalhosa: a logística. São Fidélis fica a 310 km de Niterói, e nada seria
exatamente simples. Meu irmão se prontificou a me levar até São Fidélis e me
resgatar em Campos. O Jefferson, vindo de Itaocara, combinou sua logística com
o Markley, que mora em Campos.
Para facilitar um pouco, resolvi ir para Rio das Ostras na
sexta-feira. Assim poderia descansar mais e ainda encurtar a distância até São
Fidélis. Chegamos a cogitar dormir por lá no sábado, mas acabamos decidindo
acordar cedo no domingo e seguir direto para o ponto de partida. A viagem até
Rio das Ostras foi tranquila. No sábado, preparei a comida e separei tudo o que
precisava levar. Ficou combinado: sairíamos na madrugada de domingo, às
3h15min.
Como previsto, acordamos ainda no escuro e pegamos a
estrada. No caminho até Campos, não se via quase nada; a noite ainda dominava a
paisagem. Só na RJ-158, já em direção a São Fidélis, começamos a enxergar
melhor o contorno das montanhas ao fundo. No mirante do Morro do Gambá, a vista
foi um anúncio generoso do que nos esperava naquele dia. Às 6h20min chegamos a
São Fidélis. A cidade ainda despertava lentamente, com ruas vazias e comércio
fechado.
Peguei a localização do ponto de encontro e seguimos até lá.
Chegamos praticamente juntos. Separamos o material e descemos para a casa da
família do Fabinho, morador de São Fidélis, que gentilmente nos recebeu e deu
esse apoio logístico. Ali tomamos café da manhã e nos preparamos para o
desafio.
Nós nos despedimos do Fabinho e colocamos os caiaques na
água. A manhã estava bonita e agradável. Ao tocar o remo na água, comecei a
deslizar suavemente, como se a superfície da água fosse veludo. Aos poucos, a
ansiedade foi cedendo espaço à realidade: estávamos finalmente no Paraíba do
Sul, passando por baixo de uma das pontes de São Fidélis, com o Fabinho
acenando ao longe e nos desejando boa sorte.
Daquele ponto em diante, o foco era o destino. Fiz questão
de registrar aqueles primeiros momentos. A água do Paraíba estava clara,
deixando ver algumas pedras no fundo. O rio nos recebia com calma, e aquela
tranquilidade inicial ajudava a transformar a expectativa em movimento.
Entrávamos em um trecho bem diferente dos anteriores. Não
enfrentaríamos mais corredeiras. Não por acaso, já no fim do século XIX e
início do século XX, essa parte do rio era navegada por embarcações a vapor.
Havia linhas regulares entre São João da Barra, Campos e São Fidélis,
transportando passageiros, café, açúcar e mercadorias diversas.
Eu acreditava que seria um trecho mais fácil. As corredeiras
dos trechos anteriores ajudavam o caiaque a descer o rio, mas também exigiam
força constante para manter o rumo. No fim, consumiam muita energia,
principalmente quando o cansaço começava a pesar. Agora, a promessa era outra:
um rio mais lento, mais aberto, talvez mais silencioso.
O sol apareceu de frente, mas o dia seguia agradável. Por
enquanto, isso não era problema. O rio permanecia quase como um espelho,
refletindo muito mais do que as margens: refletia também meus pensamentos.
Comecei a lembrar de toda a logística necessária para chegar até ali. Não foi
simples. Talvez seja justamente esse caminho invisível, feito de combinações,
deslocamentos e ajustes, que impeça muita gente de repetir aventuras como essa.
De volta ao que importava, segui remando. Minhas referências
eram as serras e os morros que acompanhavam o curso do rio. A primeira grande
marca na paisagem foi a Serra do Sapateiro. O rio corria devagar, e
precisávamos desviar de vários bancos de areia. Nessa época do ano, a vazão
está bem baixa. Como nos trechos anteriores, havia poucas construções nas
margens, mas também poucas árvores. A história da ocupação da região ajuda a
explicar essa paisagem: fazendas de café, criação de gado e, mais adiante, a
força da produção açucareira moldaram por muito tempo as margens do Paraíba.
Passamos por algumas casas, poucos pontos de parada e, sem
perceber, já estávamos passando pela Serra do Sapateiro. Logo depois,
alcançamos o Morro do Gambá, onde fica um mirante na qual passamos pela
estrada. Lembrei da vista lá de cima e me imaginei como um ponto minúsculo no
meio daquela imensidão de água.
Assim que o morro ficou para trás, fizemos a primeira
parada. Já havíamos remado 22 km, e era hora de descansar e comer algo mais
consistente. Dessa vez, preparei melhor minha alimentação e fui consumindo
pequenas porções ao longo da remada. Isso fez diferença. Paramos em um dos
muitos bancos de areia do caminho, fizemos algumas fotos e aproveitei para
alongar as costas, que começavam a incomodar. Ao fundo, havia um povoado — o
segundo com alguma relevância desde o início da remada. Depois do descanso,
voltamos aos caiaques e seguimos rio abaixo.
Nossa estratégia era remar perto da margem, onde o rio
corria um pouco mais rápido e podíamos aproveitar sua força. Pelo tracklog, dá
para ver que seguimos bem colados à margem direita. Depois de mais uns 10 km,
os morros começaram a diminuir, e a paisagem foi se abrindo. À medida que o rio
se aproxima de Campos dos Goytacazes, o vale se transforma em uma extensa
planície. Foi essa paisagem que ajudou a fazer de Campos um dos principais
centros produtores de açúcar do Brasil Imperial. O Paraíba do Sul oferecia
água, fertilidade e caminho para sustentar engenhos, usinas e o movimento
econômico da região.
A mudança no cenário ficou cada vez mais evidente. As
margens foram se transformando em barrancos, e as balsas de extração de areia
passaram a aparecer com mais frequência. A paisagem já não tinha o mesmo encanto.
Se antes a mudança era percebida aos poucos, agora ela se impunha de forma
clara — e, sinceramente, menos agradável. Já tínhamos passado da metade da
remada, segundo meus cálculos. Os bancos de areia se tornavam mais constantes,
e continuávamos avançando junto à margem direita.
Passamos pelo distrito de Santa Cruz com cerca de 45 km
remados. Eu estava relativamente bem, sobretudo quando comparava meu estado às
remadas anteriores. Depois de aproximadamente duas horas, fizemos mais uma
parada em outro banco de areia. Era um descanso merecido. Comi mais um bom
lanche e tentei recuperar energia. Dali em diante, entraríamos no trecho final.
Até aquele momento, as condições eram quase perfeitas: dia
fresco e vento a favor. Quando fechamos a data, comecei a acompanhar a previsão
do vento na região. Não era a melhor época do ano, mas também não era a pior.
Nos dias anteriores, ventos fortes castigavam a área, especialmente à tarde,
quando costumavam ficar contra o sentido da remada. Isso poderia complicar bastante.
Mas a previsão para aquele domingo era favorável. Sorte? Muita. Cabia a nós
aproveitar.
Como a hora da possível mudança do vento se aproximava,
voltamos logo para o rio. Aproveitei para aumentar o ritmo. O trecho era mais
monótono e, se comparado ao que já havíamos visto, bem menos bonito. A água
estava mais turva. As margens, erodidas, exibiam barrancos, árvores caídas e
várias balsas de retirada de areia. Era um cenário desolador.
Mesmo assim, eu seguia em bom ritmo. O Jefferson e o Markley
brincaram dizendo que era efeito do Todynho que eu tinha tomado. Apertei ainda
mais a remada, já pensando no vento contra que poderíamos encontrar. Naquele
momento ele entrava de lado, mas aumentava aos poucos. Ao fundo, os primeiros
prédios começaram a aparecer. Era o sinal de que o fim estava próximo.
Ao passar pelo Rio Muriaé, até o cheiro da água mudou.
Estávamos definitivamente entrando na área urbana. Foi inevitável sentir certa
tristeza ao perceber essa transformação da paisagem. O vento entrou como
previsto: mais forte e contra. Mas já estávamos na reta final. De tempos em
tempos, uma rajada mais intensa vinha pela frente. Assim que cruzamos a
primeira ponte, conseguimos ver o ponto de chegada. Seguimos juntos e, já
próximos do Cais da Lapa, nos reunimos para comemorar. A terceira etapa estava
concluída.
Dessa vez, cheguei mais inteiro do que nas duas etapas
anteriores. Arrumamos tudo. Jefferson e Markley retornaram para São Fidélis. Eu
segui para Rio das Ostras. E foi aí que começou a segunda etapa da aventura —
aquela que ninguém costuma imaginar quando vê apenas as fotos bonitas.
Pegamos a estrada no fim de um dia bonito. Deixamos Campos
para trás e seguimos em direção a Rio das Ostras. Depois de passar a segunda
entrada para Conceição de Macabu, já com quase uma hora e meia de viagem, uma
fumaça estranha começou a sair do carro. Paramos no acostamento. O radiador
estava sem água. Não havia como continuar.
Acionamos a concessionária da rodovia e, depois de uma boa
espera, o reboque chegou e nos levou até um posto próximo. Por sorte, havia um
restaurante. Liguei para o seguro, pedi outro reboque para levar o carro e
também um táxi para nos buscar.
O reboque veio relativamente rápido, mas o táxi demorou. O
restaurante fechou, e ficamos do lado de fora. Estava frio, a noite avançava, e
o sinal de celular era ruim. Não foi fácil manter contato com a seguradora.
Resolvi então pedir um carro por aplicativo. Por sorte, um motorista aceitou a
corrida. Quando chegou, explicamos a situação. No início ele hesitou em nos
levar, afinal estávamos em cinco, no meio da estrada, sem sinal e com o posto
prestes a fechar. Mas, ao perceber a situação, acabou aceitando.
Chegando a Rio das Ostras, deu tempo apenas de tomar um
banho e seguir para casa. Meu irmão nos deixou em Niterói e depois ainda seguiu
para Guapimirim. No fim das contas, havíamos saído às 3h da madrugada de
domingo, e eu só cheguei em casa às 3h da madrugada de segunda. Três horas
depois, às seis da manhã, já estava de pé para ir trabalhar.
Quando olhamos as fotos bonitas de uma aventura, quase nunca imaginamos tudo o que existe por trás delas: os quilômetros de estrada, os imprevistos, o cansaço acumulado, o frio no acostamento, a logística improvável e a teimosia de continuar. Mas talvez seja justamente isso que dê sentido à história. Afinal, o que não fazemos por uma aventura?
E assim, estava concluída mais uma etapa. Rio Paraíba do Sul, vivo!




































